20180227

A Quaresma: consciência do encontro da verdade pela misericórdia


Por: André Fernandes Oliveira



Os cristãos desde os mais remotos tempos preparam-se para as grandes solenidades anuais, a Páscoa na Ressurreição do Senhor e o Natal. A ambos os eventos da salvação, a Liturgia  privilegia os batizados com os chamados tempos fortes do Ano Eclesiástico. A saber o período de quatro semanas, o Advento e a Quaresma, simbolizado pelo arco periódico de quarenta dias: número que consoante a literatura bíblica é o espaço de uma geração para outra, referenciado na Bíblia pela peregrinação do Povo de Israel pelo deserto à terra da promessa, pelos dias que o Profeta Elias precisou para chegar ao Horeb e, para legitimar a observância quaresmal, o tempo em que, segundo os evangelistas sinóticos, Jesus passou no deserto e foi tentado por Satanás, quadro este contemplado ao I Domingo da Quaresma, vulgarizado da “Tentação do Senhor”.
A Quaresma principiada à quarta-feira, após o Carnaval, com a recepção das cinzas e a prática do jejum sagrado e da abstinência, são sacramentais que  nos inserem na dinâmica própria desse tempo. Chega-se para a Missa que abre solenemente a preparação para a Páscoa em jejum e após a homilia o sacerdote ou um outro ministro idôneo derrama nas cabeças as cinzas. A sensação é aquela que a Escritura descreve nos salmos: voltai-vos para o pó filhos de Adão, ou seja, o homem, de per si, é fraqueza, prova-se a restrição do prazer do alimento e se une a isto as cinzas, o pó!
A Quaresma é paradoxal. Mas... que é o Cristianismo, se não esta radicalidade que leva ao cimo de todo o percurso da profissão de fé começada no Batismo? A propósito da interrogativa, o literata inglês Chesterton, em sua obra elementar, Ortodoxia, escreve:
O Cristianismo não só deduz verdades lógicas, mas quando, subitamente, se torna ilógico, é porque encontrou, digamos assim uma verdade ilógica. O seu plano ajusta-se às secretas irregularidades e espera o inesperado. É simples acerca da verdade simples, mas é obstinado quanto a uma verdade sutil. Admitirá que o homem tem duas mãos, mas não admitirá [...] a óbvia dedução de que ele tenha dois corações.
À lume da exposição de Chesterton, se pode dispor a grande mística que o tempo da Quaresma  intima. Neste ponto, o apóstolo São Paulo, na segunda leitura da Santa Missa da Quarta-Feira de Cinzas, exorta: Somos embaixadores de Cristo, e é como se Deus falasse por meio de nós. Por Cristo vos suplicamos: Deixai-vos reconciliar com Deus. Aquele que não conheceu pecado, por nós Deus o tratou como pecador, para que nós, por seu intermédio, fôssemos inocentes diante de Deus(cf.2 Cor 5, 20-21). A chamada do apóstolo à comunidade de Corinto ecoa nesse tempo como um convite de profunda mudança; e esta, pois, se (a)profunda radicalmente em Jesus Cristo. Na pessoa de Jesus, tornado “pecado” para a justificação, contemplamos que a lógica da ação de Deus é superior à maneira das confortáveis concepções superficiais da conjuntura extra-cristã, destarte contemplamos o porquê da Quaresma nos imergir na realidade de uma adequação que concorde com o querer de Deus para se atingir a estatura do homem perfeito que é o Cristo. Ao percorrermos todos os textos que a Liturgia a cada dia nos propõe durante esse tempo, concluímos, uma dupla faceta: a de que o homem deseja ardentemente encontrar o Deus, cuja aliança fora quebrada com o Pecado Original e da iniciativa do próprio Senhor que não se cansa em dizer para o seu Israel: “Volta!”
Para endossar tal exposição podemos nos servir da Leitura Breve de Laudes do Sábado da Primeira Semana da Quaresma: Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações da minha frente. Deixai de fazer o mal! Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva. Vinde, debatamos-diz o Senhor. Ainda que vossos pecados sejam como púrpura, tornar-se-ão brancos como a neve. Se forem vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como lã (cf. Is 1, 16-18). Eis a razão pela qual nos decidimos a viver o tempo quaresmal: encontrar pela misericórdia a verdade! Este é um tema que deve ser recobrado, sobretudo, em nossos dias, onde a concepção de misericórdia é um critério que o próprio homem estabelece e, faz de Deus, marionete dos seus planos. Ledo engano!
Parece-nos que o Salmo 36, dos versículos dois ao cinco, descreve a sensação do iníquo quando coloca a Deus no mesmo patamar das suas relações e, alheio, impiedoso, não deseja mais a comunhão com a verdade que é o primeiro e último critério de um retorno pelas sendas da misericordiosa bondade de Deus. Com precisão diz o Salmista: Oráculo do Pecado ao perverso dentro do seu coração. Não tem medo de Deus nem mesmo em sua presença.  Ele se ilude de que sua culpa não será descoberta nem detestada. As palavras de sua boca são maldade e traição, recusa ser sensato e agir bem. Deitado planeja o seu crime, obstina-se ao mau caminho, não rejeita a maldade. Em contrapartida ao que descreve o salmista, contemplamos em Agostinho de Hipona a  experiência do autoconhecimento e do reconhecimento do pecado e que tenciona a um regresso com humilde verdade. Escreve o Santo Pastor de Hipona, no Livro I das Confissões:
É pequena a casa da minha alma, para que tu venhas a ela: que seja ampliada graças a ti. Está em ruínas: reforma-a. Contém coisas que ofendem teus olhos: digo-o, sei-o. Mas quem a limpará?  Para quem, senão para ti, clamarei: purifica-me de minhas culpas secretas, Senhor, e poupa teu servo das alheias? Eu acredito, e por isso falo. Senhor, tu sabes. Não te enumerei contra mim minhas faltas, meu Deus, e tu perdoaste a impiedade do meu coração? Não discuto teu julgamento, Senhor, tu és a verdade; e eu não quero me enganar, não quero que minha iniquidade minta para si mesma. Cf. Confissões Livro I, 6.
A perlustração de Agostinho acerca de si mesmo e a sua contrição, desperta-nos para uma pergunta crucial, para que nem caíamos na tentação da presunção e tampouco ao não temor a Deus. Agostinho tem a postura e a clara consciência de que, como diz o Salmo 50, seu coração é sua alma penitente, de modo que ainda assevera: (...) deixa-me falar à tua misericórdia, eu, terra e cinza, deixa, contudo, que eu fale, porque é à tua misericórdia que falo, não a um homem que possa rir de mim. Pois o que é que quero dizer, Senhor, senão que não sei de onde vim até aqui, para isso que chamo vida mortal, ou morte vital (...) Escuta, Deus: Ai dos pecados dos homens! Um homem diz isso, e tu tens piedade dele, porque tu o fizeste, e não fizeste seu pecado.” Os sentimentos do convertido (Agostinho) são os mesmos ou ao menos devem parecer com os nossos neste tempo de meta-noia.
É preponderante, refletirmos: A misericórdia que procuro em Deus é uma via oportuna para uma volta ao coração da verdade ou um subterfúgio para que moldemos “Deus” aos nossos apetites, levando a uma (in)contrição? Serviremo-nos de Chesterton que pode nos ajudar à reflexão da interrogativa: O Coração deve fixar-se no que é certo, e, no momento em que tivermos um coração fixo, teremos a mão livre.Parece-nos que nesta afirmação se desvela o que havíamos proposto: voltar pelo caminho da misericórdia para a verdade. Um coração afixado o é virtuoso. Paulatinamente vai se conformado ao coração do Trespassado que, pendente do alto da Cruz, diz-nos, como a Parábola do Pai Misericordioso: Tudo o que é meu é teu. Este é o itinerário da Quaresma: em Cristo, a Páscoa, celebrarmos o nosso êxodo para a contemplação da verdade buscada.

Referências:

1- Agostinho, Santo, Bispo de Hipona, 354-430. Confissões/ tradução do latim e prefácio de Lorenzo Mammì - Primeira edição - São Paulo: Peguin Classics Companhia das Letras, 2017.
2- Biblia do Peregrino -  Edição de Estudos; Paulos, 2002.
3- Liturgia das Horas Segundo o Rito Romano II Tempo da Quaresma, Tríduo Pascal, Tempo da Páscoa; Paulus, 2000.
4- Ortodoxia; CHESTERTON, G.K.; Tradução de Ives Granda da Silva Martins Filho -  Campinas, SP: Ecclesiae, 2013.
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20180220

Clube do Livro II: UM PAPA MODERNO, ANTIMODERNO OU PÓS-MODERNO?

Por: Rudy Albino de Assunção

 “A palavra Igreja fere os ouvidos da modernidade”[1]. O teólogo Joseph Ratzinger assim se expressava acerca da postura da época moderna diante da Igreja. Tal afirmação ficou muito tempo ecoando em meu interior. E quanto mais eu lia a obra do teólogo Ratzinger – na qual eu comecei a mergulhar com apenas quinze anos – fui percebendo que ele tinha um diagnóstico não só da Igreja em nosso tempo, mas do “nosso tempo”. A palavra modernidade e seus derivados eram frequentes na obra ratzingeriana. Eu queria entender como ele via a Igreja, mas logo me dei conta de que seria impossível fazê-lo sem estudar a fundo a visão de Ratzinger sobre o mundo com o qual ela tem que se confrontar. Por isso, a pergunta da qual nasceu este livro é precisamente a inversão da asserção acima: para Ratzinger, a palavra modernidadefere ainda os ouvidos da Igreja? Afinal, Igreja e modernidade são duas realidades colocadas habitualmente em oposição. A verdade é que a relação entre ambas – uma instituição religiosa e uma etapa histórica – é bem mais complexa, pois “o cristianismo foi um ‘vetor’ da modernidade exatamente como, em última análise, foi sua ‘vítima’”[2].
Embora o protestantismo ascético (anabatista, calvinista etc.) esteja associado ao aprofundamento e à consolidação da modernidade, figurando entre a multiplicidade de suas causas – como nos fez ver a sociologia do racionalismo de Max Weber[3] a que se recorrerá neste estudo – o catolicismo é aquele que fez sentir em seu meio de modo mais drástico as suas consequências. Desse ponto de vista, para entender a modernidade deve-se colocá-la à contraluz do catolicismo entendido por determinada abordagem histórica como o seu principal antagonista: “A mais conhecida versão das relações entre o cristianismo [catolicismo] e a modernidade é a de exclusão mútua. O cristianismo ocidental pretende ser decididamente antimoderno, na medida em que a razão das Luzes mina as bases da autoridade da revelação e da tradição e em que o advento das sociedades democráticas contesta diretamente o princípio hierárquico da sociedade-Igreja”[4].
Por isso, a relação entre catolicismo e modernidade está cheia de intervenções do magistério papal[5], em geral opondo-se à modernidade; esta última era encarada pelo papado, para usar as palavras do historiador Émile Poulat, com uma “intransigência intratável”[6]. Mas, segundo a própria narrativa teológica e historiográfica católica, um evento mudou essa orientação: o Concílio Vaticano II (1962-1965)[7]. Seus documentos revelariam a intenção da Igreja em manter umdiálogo com o mundo moderno, o que representaria uma mudança oficial de postura, correspondendo “à passagem de uma interpretação da modernidade como categoria ideológica, tal como se dera na tradição antimodernista, para uma consideração da mesma como um fenômeno puramente histórico”[8]. Com o Concílio, afirmava-se a ideia de ler os “sinais dos tempos” sob uma óptica “otimista”, visando com um isso um aggiornamento, uma atualização da Igreja: “Com o Vaticano II não será mais necessário, para identificar-se como cristão, declarar-se antimoderno” [9].
A partir da eleição de João Paulo II em 16 de outubro de 1968, diversos comentadores defenderam que essa herança de abertura do Concílio foi deixada de lado[10]. Esse papa teria endossado um projeto “substancialmente antimoderno” [11]. Há, é claro, uma leitura contrária do papado wojtyliano[12], tal como a de Andrea Riccardi, que endosso: “Esta é linha do pontificado de João Paulo II sobre as grandes questões que separam a Igreja da modernidade ocidental: não adaptar-se, mas procurar uma nova linguagem e novas práticas, para viver e propor aquilo em que a Igreja crê”[13].
Prosseguindo com o quadro que estamos construindo, para José Comblin (1923-2011), teólogo e missionário belga radicado no Brasil, o Cardeal Joseph Ratzinger teve um papel preponderante na orientação doutrinal do pontificado de São João Paulo II[14]. Essa avaliação fica ainda mais cristalina na seguinte avaliação, presente na sua obra O povo de Deus: “O Cardeal J. Ratzinger foi o instrumento mais adequado que se podia achar para dirigir a manobra de restauração. Fora teólogo do Concílio, mas foi um dos primeiros que se assustaram e se arrependeram. Na realidade a sua teologia não se adequava à teologia conciliar. Já desde 1969 voltou à teologia anterior. Ele mesmo cultivou uma visão extremamente pessimista do mundo moderno e acentuou ainda mais as tendências pessimistas do papa”[15]
Nosso interesse vai além da dura afirmação de Comblin de que há ruptura no pensamento ratzingeriano, o que Ratzinger peremptoriamente rejeitou inúmeras vezes[16]. Mais do que uma apreciação global da obra ratzingeriana feita pelo teólogo belga, interessa em sua afirmação a correlação necessária que ele estabelece: uma orientação “conservadora” em relação ao Concílio significaria uma visão negativa da modernidade com a qual a grande assembleia pretendeu dialogar. Comblin está longe de ser o único a endossar esta avaliação negativa da hermenêutica do Vaticano II realizada pelo Cardeal Ratzinger, pois ela foi e é vista amiúde como oposição ao Concílio e, consequentemente, como oposição à modernidade[17].

Trecho da introdução de: ASSUNÇÃO, R. A. de. Bento XVI, a Igreja Católica e o "espírito da modernidade". Uma análise da visão do Papa Teólogo sobre o "mundo de hoje". São Paulo-Campinas: Ecclesiae-Paulus, 2018.










[1] RATZINGER, Joseph. Credo para hoje: em que acreditam os cristãos. Braga: Editorial Franciscana, 2007a, p. 149.
[2] GEFFRÉ, Claude; JOSSUA, Jean-Pierre. Editorial: Interpretação teológica da modernidade. Revista Concilium, Petrópolis, v. 6, n. 244, 1992, p. 4.
[3] Cf. WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
[4] Ibid. GEFFRÉ, Claude; JOSSUA, Jean-Pierre. Editorial: Interpretação teológica da modernidade. Revista Concilium, Petrópolis, v. 6, n. 244, 1992, p. 4.
[5] Cf. SABETTA, Antonio. Teologia della modernità. Percorsi e figure: Cinisello Balsamo: San Paolo, 2002.
[6] POULAT, Émile. Catolicismo e modernidade: um processo de exclusão mútua. Revista Concilium, Petrópolis, n. 244, v. 6, p. 17-24, 1992, p. 17.
[7] O Concílio Ecumênico Vaticano II foi uma assembleia de bispos de todo o mundo, convocado pelo papa João XXIII em 1959 e inaugurado em 1962. Durante os trabalhos conciliares faleceu João XXIII e, em seguida, foi eleito Paulo VI, que decidiu prosseguir com o Concílio. Este foi encerrado em 1965 (cf. ALBERIGO, Giuseppe. Breve história do Concílio Vaticano II: (1959-1965). Aparecida, São Paulo: Santuário, 2006).
[8] TURBANTI, Giovanni. A atitude da Igreja em face ao mundo moderno, durante o Concílio e no pós-Concílio. Revista Concilium, Petrópolis, v. 6, n. 244, 1992, p. 105.
[9] DUQUOC, Christian. Pertença eclesial e identificação cristã. Revista Concilium. Petrópolis, v. 12, n. 216, 1998, p. 129.
[10] Confluem nesse sentido as opiniões presentes nas seguintes obras: LIBÂNIO, João Batista. A volta à grande disciplina. São Paulo: Loyola, 1984; LADRIÈRE, Paul. (org.) Le retour des certitudes. Evénements et orthodoxie depuis Vatican II. Paris: Centurion, 1987; LADRIÈRE, Paul. Le rêve de Compostelle. Vers la restauration d’une Europe chrétienne? Paris: Editions du Centurion, 1989; LERNOUX, Penny. People of God. The struggle for World Catholicism. New York: Viking, 1989; MENOZZI, Daniele. Giovanni Paolo II. Una transizione incompiuta? Brescia: Morcelliana, 2006. Uma avaliação do longo e complexo pontificado de João Paulo II não está dentro do objetivo desta análise, o que não permite discutir ou problematizar esta leitura do seu governo da Igreja.
[11] Embora com “traços de indiscutível modernidade” (TURBANTI, 1992, p. 114), tais como as viagens, o uso dos mass media, o abandono de uma aura de sacralidade do papado. 
[12] Para uma visão contrária a tal avaliação do pontificado de São João Paulo II, cf. PORTIER, Philippe. Cristianismo e Modernidade no pensamento de João Paulo II.Numen: Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, Juiz de Fora, v. 12, n. 1 e 2, p. 59-80.
[13] RICCARDI, Andrea. João Paulo II: a biografia. São Paulo: Paulus, 2006, p. 44.
[14]  Joseph Alois Ratzinger nasceu em 16 de abril de 1927, em Marktl am Inn, Baviera, na Alemanha. Depois de ordenado sacerdote, iniciou sua carreira acadêmica em diversas universidades alemãs. Em 1977 foi nomeado arcebispo de München e Freising, pelo Papa Paulo VI. No mesmo ano foi nomeado cardeal. Permaneceu em sua arquidiocese até 1982, quando o Papa João Paulo II o chama a Roma para assumir a função de Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé. No dia 19 de abril de 2005 é eleito papa, sucedendo a João Paulo II, tendo escolhido para si o nome de Bento XVI. Cf.BLANCO, Pablo. Benedicto XVI, el papa alemán. Barcelona-Ciudad de México: Planeta, 2010 (há uma versão anterior, mais reduzida, do mesmo autor, publicada no Brasil: Joseph Ratzinger: uma biografia. São Paulo: Quadrante, 2005a. Cf. também TORNIELLI, Andrea. Bento XVI: o guardião da fé. Rio de Janeiro, Record, 2006 e SEEWALD, Peter. Bento XVI visto de perto. São João do Estoril: Lucerna, 2007. Para uma breve e didática iniciação ao seu pensamento: BLANCO, Pablo. Bento XVI: Um mapa de suas ideias. São Paulo: Molokai, 2016; mas para uma visão mais ampla dos temas abordados pelo teólogo alemão, cf. BLANCO, Pablo. La Teología de Joseph Ratzinger. Una introducción. Madrid: Palabra, 2011. Tem-se ainda, em língua portuguesa, VIGINI, Giuliano. Guia para a leitura da obra de Joseph Ratzinger, Bento XVI. Cascaes: Lucerna, 2012.
[15] COMBLIN, José. O povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2002, p. 8.
[16] A resposta a essa afirmação é dada pelo próprio Ratzinger: “Na minha história de teólogo, não vejo nenhuma fratura mas um desenvolvimento. Em primeiro lugar, o contexto histórico mudou. Permita-me contar um fato que se verificou em 1968, quando percebi essa mudança com clareza. Um jovem me disse que perdera a fé mais ou menos um ano antes, e continuou a praticar o cristianismo exteriormente, para não criar problemas no seu meio. Em 1968, participou de um grande encontro com estudantes como promotor da autêntica renovação da Igreja, com arrogância consciente e agressividade. Pode ser que esse seja um caso particularmente drástico, mas a partir daquele momento era claro que se tratava de outras questões em relação ao que acontecia em 1965 e que nós, como teólogos, vivíamos em um contexto diferente” (RATZINGER, Joseph. Ser cristão na era neopagã: Entrevistas (1986-2003)v. 3. Campinas: Ecclesiae, 2016, p. 110-111).
 [17] HÄRING, Hermann. Una teologia cattolica? J. Ratzinger, o il trauma di “Giovannino fortunato”. In: KÜNG, Hans; GREINACHER, Norbert (a cura di). Contro il tradimento del Concilio. Dove va la Chiesa cattolica? Torino: Claudiana Editrice, 1987, p. 201-213; KÜNG, Hans. Il cardinale Ratzinger, papa Wojtyla e la paura della libertà. Una parola chiara dopo un lungo silenzio. In: KÜNG, Hans; GREINACHER, Norbert (a cura di). Contro il tradimento del Concilio. Dove va la Chiesa cattolica? Torino: Claudiana Editrice, 1987, p. 325-340.
Cf. também MENOZZI, Daniele. El anticoncilio (1966-1984). In: ALBERIGO, Giuseppe; JOSSUA, Jean-Pierre (eds.). La recepción del Vaticano II. Madrid: Cristiandad, 1987, p. 385-413. A quinta parte é dedicada às “Posturas negativas ante o Concílio”. Menozzi diz tentar discernir formas sutis de resistência ao concílio no terreno de sua aceitação (p. 389). O autor questiona a própria postura de Paulo VI em relação ao concílio. Ele aponta também que Paulo VI teria adotado uma via media entre os inovadores que querem se libertar da tradição e os conservadores incapazes de distinguir os costumes abandonáveis e a tradição que se deve preservar (p. 396). Paulo VI, na visão de Menozzi, elogiava com mais frequência aos conservadores e, inclusive, muitas de suas tomadas de posição assemelhavam-se aos discursos de Mons. Marcel Lefebvre. Embora Ratzinger ainda não apareça diretamente no texto, logo depois ele será colocado na mesma fileira que outros teólogos e eclesiásticos considerados, de algum modo, opositores do Vaticano II.
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20160301

Santo Agostinho - Filosofia

Com Agostinho a especulação teológica passa a se unir ao próprio homem, onde passaria a ser orientador dos séculos. De sua plenitude irão haurir as gerações de todo um milênio, sem jamais conseguir esgotá-la.
Vivências filosóficas de Agostinho
Podemos definir de forma direta, mas não tão dividida claramente, as suas experiências filosóficas até chegar ao cristianismo da seguinte forma:
Maniqueísmo¹ → Ceticismo² → Neoplatonismo → Cristianismo
Refutações aos Maniqueus
Aquilo que, Segundo St.Agostinho, desmente o próprio principio do maniqueísmo é o caráter fundamental de Deus:a incorruptibilidade que é própria de Deus, desta forma não há sentido afirmar que existe uma luta.O que vai de contra ao argumento que Deus devia combater eternamente o principio do mal.
Refutações aos Ceticistas
Ainda que os céticos afirmem que os sentidos não reproduzem fielmente as coisas,é um fato incontestável que eles pelo menos percebem algo ou seja o ato da percepção é um fato que não admite a menor dúvida.É também claro que existem verdades lógicas,podendo ser: proposições condicionais,por exemplo,se existem um sol,não há dois sóis; ou a impossibilidade de contradição em que se pode afirmar que é impossível que a alma seja mortal e imortal.
“Prova da existência de Deus”
Na realidade não existe prova da existência de Deus, já que ele não é algo medido experimentalmente ou que todo o seu ser caiba em conceitos humanos. Mas é possível apontar para a existência de um Deus na medida de nossas limitações. É preciso primeiro esta a par de duas regras básicas para compreender como se desenvolve a sua prova da existência de Deus.
1°-Aquilo que inclui certas outras perfeições, é mais perfeito que estas.
2°- Aquilo que julga de outras coisas é mais perfeito que as coisas sujeitas ao seu julgamento.


O raciocínio vai se desenvolvendo a partir de uma hierarquia, começando de baixo até se chegar ao topo da pirâmide que é Deus.
Sabendo que se sabe que o ser humano existe, vive e pensa. Conclui-se que pensar é o mais perfeito, pois envolve os dois outros conceitos (ver regra n°1). Já que se algo pensa é porque ele vive e existe de fato. Logo o homem se torna acima das plantas e dos animais. E o pensar é o que há de mais elevado no homem, pois julga de outro e não é julgado por outro (ver regra n°2).
Existem Verdades que estão acima de certas verdades. As Verdades com um ‘V’ maiúsculo precisam atender há três características fundamentais, ela devem ser: universais, imutáveis e necessárias. Um exemplo disso se encontra na matemática, 1+1 necessariamente é igual a 2 em todos lugares e isso sempre foi e será verdade. Assim estas verdades então acima do pensamento humano, pois o pensar humano é mutável (ver regra n° 1). Logo, ai estar Deus! Nestas verdades ou acima delas.

Doutrina da Iluminação divina
Para explicar como é possível ao homem receber de Deus o conhecimento das verdades eternas, necessárias e imutáveis, Agostinho elabora a doutrina da iluminação divina. Consiste em dizer que existe uma luz eterna da razão que procede de Deus e atuaria da todo momento, possibilitando o conhecimento das verdades eternas. Ou seja, esse conhecimento verdadeiro é o resultado de um processo de iluminação divina, que possibilita ao homem contemplar as idéias, arquétipos eternos de toda a realidade.
Esclarecimento sobre a Predestinação
A graça é necessária para que o homem possa lutar eficazmente contra as tentações da concupiscência. Sem ela o livre-arbítrio pode distinguir o certo do errado. Mas não pode tornar o bem um fato concreto, a graça é necessária e dada a todos os homens. Ajunta-se ao livre-arbítrio sem, entretanto, negá-lo; é um fator de correção e não o aniquila. Predestinação é o decreto de Deus de felicidade aos eleitos. A presciência infalível de Deus (e, portanto, também a predestinação) inclui o livre-arbítrio. A presciência de Deus não pode forçar a inevitável coerção humana, pela simples razão de que esta nada mais é do que a visão eterna dos fatos históricos futuros. Deus prevê a livre ação do homem precisamente da forma como este deseja que ocorra. Predestinação não é predeterminação da vontade humana.
“Predestinação nada mais é do que a presciência e a preordenação dos dons graciosos que tornam certa a salvação de todos os que foram salvos”. (Sto. Agostinho, Persever. 14,35).
“..porque o filho do homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos,e então recompensará a cada um segundo suas obras.”(MT 16,27).
* Citações
1- Os Maniqueus admitiam que Deus devia combater eternamente com o princípio do mal. 
2- Os Ceticistas julgavam que de tudo se devia duvidar e sustentavam que nada de verdade podia ser compreendido pelo homem.

Por: Augusto César
Catholic Nerds PE

> Referências
História da Filosofia Cristã- Philotheus Boehner e Etienne Gilson.12° Ed,Editora Vozes.
História da Filosofia- Nicola Abbagnano.Vol II,Editorial presença.

Santo Agostinho- Os Pensadores,Ed.Nova Cultura.
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Santo Agostinho - Vida

Aurélio Agostinho nasceu em 354 em Tagaste, na África Romana. Viveu numa época de grandes transformações com a queda da cultura grego Romana e o crescimento do Cristianismo que estava dando seus primeiros passos. Um império caia, mas um gigante se levantava no meio Cristão. Com uma mente brilhante, Agostinho se tornou um dos maiores nomes da história da Igreja. Mas antes de tudo, era um homem sincero consigo mesmo, com inquietações, anseios e fraquezas que ele mesmo expõe através de uma obra prima chamada confissões, a qual mostra as misérias de sua alma e seu longo caminho de santificação.

Filho de um pai pagão, Patricio, homem cuidadoso com o filho, porém desprovido de ensinamentos Cristãos. Era filho também de Mônica, mulher incansável e implacável na esperança de ver seu tão amado filho nos braços de Deus. Na adolescência, Agostinho vivia uma vida semelhante a muitos jovens de hoje, entregue aos prazeres da carne e com os valores espirituais e racionais ofuscados. Assim ele fala dos conselhos da mãe:  “ De quem eram, senão de vós, aquelas palavras que , por meio de minha mãe, vossa fiel serva, pronunciastes aos meus ouvidos? Nenhuma delas, porém, desceu ao meu coração, para cumprir o que ela me aconselhava”.

Com 19 anos Agostinho teve acesso a obra literária de Cícero chamada Hortênsio, onde Cícero respondia as dificuldades de Hortênsio contra a filosofia, após a leitura desta obra ele se empolga com a filosofia e começa a acreditar que existe uma sabedoria a ser descoberta, assim excitando-o fortemente o desejo de amar, busca, conquistar, reter e abraçar, não esta ou aquela seita, mas sim a mesma sabedoria, qualquer que ela fosse. Inicialmente buscou na bíblia esta sabedoria, mas julgou-a por simplista demais, indigna de compara-la à elegância ciceroniana, coração soberbo não o deixava penetrar nas profundezas das leituras bíblicas. Um das coisas que inquietava Agostinho era o problema do mal, se Deus existe porque há o mal no mundo? A seita maniqueísta respondia com simplicidade a esta pergunta, afirmando que existem duas forças agindo no mundo como num ringue de batalha, essas duas forças eram o bem e o mal, desta forma, o mal se apresenta como uma força equiparada ao bem, sendo que do lado aposto. Por este e outros motivos Agostinho entrava nesta seita para tristeza de sua mãe que chorava lágrimas pela conversão de seu filho, certa vez Mônica se dirigiu a um Bispo pedindo que o próprio orientasse Agostinho para afastar-se do mal, ele prontamente negou o pedido afirmando que seu filho ainda era indócil e que ele mesmo pela leitura reconhecerá o erro e quão grande é a sua impiedade. Mônica continuava insistindo, não querendo sossegar com mais súplicas e assim vendo a angustia daquela mãe, o Bispo viria a dar uma resposta que ficou marcada nos anais da história Cristã: “Vai em paz e continua a viver assim porque é impossível que pereça o filho de tantas lágrimas!”, sábias e inspiradoras palavras que certamente confortaram aquela que viria a ser proclamada Santa pela Igreja.


Ao mesmo tempo, sua brilhante e notável inteligência estava se manifestando e ele ganhou vários torneios de poesias e se tornou conhecido no mundo filosófico. Demorou nove anos para Santo Agostinho se libertar de sua vida herege no maniqueísmo, o fato decisivo de sua saída foi ao conhecer Fausto, um eloquente mestre da seita. Agostinho o fazia várias indagações, que apesar de seu agradável jeito de se expor, tinha pouco a oferecer aquela mente inquieta, assim explicita Agostinho: “Mas como é que esse copeiro tão elegante, que me servia por copos preciosos, me podia matar a sede?”. Desiludido, o professor de retórica em Cartago¹ partiu para Milão onde, sem querer, viria a conhecer um Santo que mudaria a sua visão sobre a vida Cristã.

Esse Santo se chama Ambrósio que era Bispo de Milão, homem conhecido pelas suas qualidades e muito piedoso. Agostinho escutava com atenção as pregações de Ambrósio e assim ele relata a sua experiência primeira com o Bispo: “Deleitava-me com a suavidade do discurso, bem mais erudito do que Fausto, porém menos humorístico e sedutor na apresentação. Pelo que se refere ao assunto, não se podem comparar, pois um vagabundava pelos enganos dos maniqueístas, e o outro ensinava com a máxima segurança a salvação”. As pregações de Ambrósio continham um forte teor platônico, assim foi através das palavras do Bispo e de seus estudos de livros platônicos que Agostinho começou a deixar de lado sua ideia de um Deus corpóreo² para o conceito de incorporiedade e da infinitude de Deus. Aos poucos Agostinho caminhava para o cristianismo e estava ficando cada vez mais persuadido que a verdade estava em Cristo, porém ainda não tinha a coragem de se livrar das correntes do pecado: “Era demasiado fraco para gozar de vós!”. Faltava-lhe um impulso, uma força do alto que o ajudasse a rasgar com aquele homem velho que existia em si e se entregar nos braços daquele que é manso e humilde de coração.

Tudo começou a mudar quando em certo dia num Jardim em Milão uma luta interna se travava dentro do seu coração: “Dizia dentro de mim: Vai ser agora, agora mesmo. E pelas palavras caminhava para a decisão final. Estava a ponto de a cumprir, e não a cumpria. Já não recaia na antigas paixões, mas estava próximo delas e respirava-as”. As tentações da carne ainda eram intensas, velhas amigas murmuravam baixinho: “Então despede-nos? Daqui por diante, nunca mais estaremos contigo. Desde agora, nunca mais te será lícito fazer isto e aquilo..” e assim relata Agostinho: “ E que coisas, ó meu Deus, que pensamentos me sugeriam as vaidades..que imundícies me sugeriam, que indecências!”. A luta de Agostinho consigo mesmo era intensa e soltava gritos lamentosos: “Por quanto tempo, por quanto tempo andarei a clamar: Amanhã, amanhã? Por que não há de ser agora?”. Uma dor amarga o dominava e chorava rios de lágrimas até escuta uma voz de uma casa próxima que dizia: “Toma e lê; toma e lê”. Imediatamente mudando o semblante percebeu que a ordem era para abrir a bíblia e ler o primeiro capítulo que encontrasse, prontamente ele abriu no livro de Romanos 13,13: Não caminheis em glutonarias e embriaguez, nem em desonestidades e dissoluções, nem em contendas e rixas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne com seus apetites”. Ao acabar de ler penetrou no coração de Agostinho uma luz serena,e todas as trevas da dúvida fugiram. Quando fechou o livro se levantava um gigante, não era só um homem que se convertia, era um homem que viria a transforma todo o pensamento Cristão e que iria mudar os rumos de uma época, um gênio finalmente despertava! Ao saber o ocorrido sua mãe bendizia a Deus porque lhe tinha concedido muito mais do que ela costumava pedir, com tristes e lastimosos gemidos. Assim Agostinho fecha o capitulo sobre sua conversão em seu livro chamado Confissões:  “De tal forma me converteste a vós que eu já não procurava esposa, nem esperança alguma do século, mas permanecia firme naquela regra de fé em que tantos anos antes me tínheis mostrado a minha mãe. Transformastes a sua tristeza numa alegria muito mais fecunda do que ela desejava, e muito mais querida e casta do que a que podia esperar dos netos nascidos da minha carne.”   

Em 25 de Abril de 387 recebia o batismo das mãos de Santo Ambrósio, depois disso viu a morte de sua mãe que já não mostrava interesse de viver neste mundo. Uma coisa só fazia Mônica prolongar sua vida neste mundo que era ver seu amado filho Católico, assim nada mais a impedia, seu corpo estava no mundo, mas sua alma já estava completamente entregue a Deus. Dirigindo a Agostinho e a seu irmão falava: “Enterrai este corpo em qualquer parte e não vos preocupei com ele. Só vós peço que vos lembre de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejais”. Com 56 anos de idade morria esta alma piedosa³. Em Tagaste, no ano de 391, Agostinho foi ordenado sacerdote; em 395 foi consagrado bispo de Hipona. Combateu os inimigos da fé e da Igreja,e também escreveu variadas obras primas que são estudadas até os dias atuais. No campo da filosofia contribui de forma significativa, sendo chamado de Platão Cristão. Em 28 de Agosto de 430 morre Agostinho.
A vida deste Santo nos traz a tona que mesmo os grandes Santos passaram pelas mesmas angustias e dúvidas que nós passamos ao longo da caminhada, mostra-nos que verdade conhecida deve ser verdade obedecida. Ai esta o drama da vida de Agostinho e de todos os Cristãos, esta no fato de que é preciso deixar muitas vezes nossos gostos, sentimentos e pensamentos próprios para se curvar a uma verdade. O homem tem sede da verdade e talvez por amarem de tal modo a verdade que todos os que amam outra coisa querem que o que amam seja verdade. Como não querem ser enganados, não se querem convencer de que estão no erro e assim a soberba vai direcionando a alma em caminhos cheios de enganos e vazios.

Citações:
1- Agostinho ensinava retórica em Cartago (Norte da África), mas com 29 anos decidiu continuar o ensino em Roma; era movido pela esperança de ter alunos menos turbulentos que os de Cartago e também pela ambição de consegui sucesso e dinheiro. Mas após um ano desistiu e assumiu o cargo de professor em Milão.
2- Agostinho acreditava que Deus abraçava o mundo como que uma esponja gigante abarcaria todo um mar. Assim possuindo uma ideia materialista de Deus.
3- Mônica recebeu da Igreja e da tradição cristã o título de santa. O seu corpo foi sepultado na cripta da igreja de Santa Áurea, em Óstia, onde foi descoberto em 1430 e transladado para Roma.

Por: Augusto Cesar
Catholic Nerds - PE

*Referências
História da Filosofia- Nicola Abbagnano.Vol II,Editorial presença.

Santo Agostinho- Os Pensadores,Ed.Nova Cultura.
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O revezamento da Cruz pelo penhasco!

A maré virou! Não quero fazer o papel de “corvo da tempestade”, “coveiro dos amigos ou familiares”, mas é fato que a maré virou, e a virada foi vertiginosa, abrupta, violenta e, como não poderia deixar de ser, sem requintes de piedade... Sim, caro leitor, nossa estimada Civilização Ocidental, baluarte dos questionamentos filosóficos mais requintados e evoluções científicas incomparáveis finalmente rompeu a fronteira que separa uma “revolta juvenil contra seus pais” do “abandono definitivo do lar” e, o que é pior, de suas raízes. A você que me lê neste momento, deixe-me abrir seus olhos, mostrar-lhe este vasto território que se estende da Grécia aos confins da América e exclamar com voz seca, taxativa, firme e consciente: nossa Civilização não é mais cristã!

Não sou daqueles que traz a notícia com alívio no coração; muito pelo contrário. Como eu disse, não quero ser o “corvo”, e normalmente na literatura de ficção o corvo é atribuído aos maus presságios. Não é um mau presságio o que eu anuncio, mas uma realidade já consumada e incontestável para quem tiver a coragem de despertar de um longo sonho que durou quase mil e seiscentos anos, iniciado quando, em 312, o homem mais poderoso da Terra reconheceu a autoridade do Todo-Poderoso, que emana dos Céus, após a visão de uma brilhante Cruz e dos dizeres “In hoc signo vinces” (com este sinal vencerás)[i], tendo marchado e vencido o inimigo na ponte Mívio. E assim, caro leitor, você certamente não guarda a lembrança, mas os anais da História se encarregaram de registrar que em 313 Constantino concedeu a liberdade de culto aos cristãos. E deste modo iniciou-se, nos dizeres de Henri Daniel-Rops, o “revezamento do Império pela Cruz”[ii]! Obviamente não terei espaço para relatar todas as consequências que advieram deste significativo marco, mas basta lhe dizer que Roma finalmente caiu. E eis alguns dos motivos que, nas palavras do mencionado historiador da Academia Francesa, já falecido, levaram ao chão o maior Império do mundo: “Não é preciso dizer que todos os valores do homem desapareceram. A moral já não existe, afundada sob um mar de lama e de escândalos. [...] A devassidão, a queda da natalidade e a desonestidade são gerais, e é inútil fazer-lhes frente. Quanto aos valores criadores, seguem a mesma curva de decadência. [...]”[iii]. Parece que ele está a falar de nossos tempos (e as palavras poderiam ser as mesmas), mas refere-se na verdade ao estado de coisas que levaram Odoacro, chefe dos hérulos, a derrubar Rômulo Augusto em 476 e assim pôr fim ao Império.

Todavia, quando caiu a antiga cidade da Loba, a Igreja estava lá como farol a iluminar a humanidade que, dividida em tribos, batiam como ondas nas encostas dos montes da Cidade das Sete Colinas! E como farol sobrenatural a iluminar as tenebrosas escuridões dos calabouços interiores de todo aquele que se deixa envolver por esta Luz, fez o que parecia impossível: conduziu o homem para a verdadeira Idade das Luzes, a Idade Média, injustamente, ridiculamente e pateticamente apelidada pelos pensadores racionalistas da era do Renascimento de Idade das Trevas. Nada mais esdrúxulo, uma vez que destas famigeradas “trevas” surgiram: o ensino das famosas Sete Artes, isto é, o Trivium (gramática, dialética e retórica) e o Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música); a escola para os pobres, provida pela Igreja, como se prova, dentre outros, pelo Cânon 18 do Concílio Ecumênico de Latrão III, realizado em 1179; as Universidades, criadas pela Igreja, com seus famosos debates; o desenvolvimento da Arquitetura por meio da construção de fabulosas Catedrais; o surgimento de grandes cientistas, como Santo Alberto Magno, o monge franciscano Roger Bacon, o cardeal Nicolau de Cusa, o franciscano Luca Pacioli, Gerberto de Aurilac (Papa Silvestre II), Robert Grosseteste, também franciscano, etc. Sim, nobre leitor, afirmo com veemência que pelo menos 95% do que você aprendeu na escola sobre a Idade Média está completamente errado! Sobre a Igreja, subo a estimativa para cerca de 98%, e isso inclui o caso Galileu Galilei, Joana D’Arc, Giordano Bruno e a Inquisição de um modo geral! A detentora da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, que possui 70 membros vencedores do Prêmio Nobel (muitos dos quais venceram o prêmio quando já eram da academia) nunca foi inimiga da Razão ou da Ciência, e legou ao mundo a Civilização mais esplendorosa que nele já despontou: a Civilização Ocidental. “A Igreja Católica configurou a civilização em que vivemos e o nosso perfil humano de muitas maneiras além das que costumamos ter presentes. Por isso insistimos em que ela foi o construtor indispensável da civilização ocidental. Não só trabalhou para reverter aspectos moralmente repugnantes do mundo antigo – como o infanticídio e os combates de gladiadores –, mas restaurou e promoveu a civilização depois da queda de Roma. Tudo começou pela educação dos bárbaros, e é neles que nos detemos ao iniciarmos este livro.”[iv] (Dr. Thomas Woods, formado em História por Harvard, com PhD pela Universidade de Columbia).

Mas é bem verdade que “o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41) e, desde a mais tenra infância, “Se realmente ler os contos de fadas, você observará que uma ideia os percorre de uma ponta a outra – a ideia de que a paz e a felicidade só podem existir com alguma condição[v] (G. K. Chesterton). Cinderela pareceria mentirosa na frente do príncipe se não tivesse respeitado a regra de não estar mais no baile após a meia-noite, pois o vestido reapareceria rasgado, os cavalos tornariam a ser ratos e a carruagem voltaria a ser abóbora, e é bem provável que seu final não fosse feliz. Pinóquio não se tornaria um menino de verdade até que tivesse aprendido a respeitar totalmente sua consciência e não confiar em estranhos. Os homens continuariam a permitir o progresso da sociedade se não se tivessem deixado envolver, já no fim da Idade Média, pelo orgulho e pela sensualidade, pecados que abriram as portas para os movimentos revolucionários: primeiro, a Revolução Protestante, que levou o homem a rebelar-se contra a autoridade religiosa; depois, a Revolução Francesa, e o homem que havia se revoltado contra a autoridade religiosa agora se levanta contra a autoridade civil; em seguida, vem a Revolução comunista, na qual, nas palavras de Plínio Corrêa de Oliveira, em sua célebre obra Revolução e Contra-Revolução, “A sensualidade, revoltada contra os frágeis obstáculos do divórcio, tende por si mesma ao amor livre. O orgulho, inimigo de toda superioridade, haveria de investir contra a última desigualdade, isto é, a de fortunas. E assim, ébrio de sonhos de República Universal, de supressão de toda autoridade eclesiástica ou civil, de abolição de qualquer Igreja e, depois de uma ditadura operária de transição, também do próprio Estado, aí está o neobárbaro do século XX, produto mais recente e mais extremado do processo revolucionário.”[vi] Nada mais natural, posto que um abismo atrai outro abismo! O homem que desprezou a Fé em nome da Razão também seria levado a desprezar esta, pois ambas nos são dadas por Deus! E assim, desiluminado e desarrazoado, desprezou sua Mãe (a Igreja) e também o seu Pai (Deus) e, com eles, todos os valores que, em sua mente doentia, impedem sua felicidade final!  E assim chegamos à verdadeira Idade das Trevas, onde a Morte e não a Vida é quem dá a última palavra: é o aborto, a eutanásia, os suicídios como nunca se viram, a multiplicação das depressões, o desprezo e a tentativa de destruição das famílias com o divórcio, a ideologia de gênero, as uniões gays. Tudo, absolutamente tudo é bem-vindo, desde que não seja “moralista”; aliás, quanto mais imoral, melhor! Eis que o estratagema de Satanás vai obtendo êxito, tudo porque nossa Civilização lhe abriu uma pequena fresta. Como bem disse Pio XII, em seu Discorso agli uomini di Azione Cattolica, em 12 de outubro de 1952: “Ele se encontra em todo lugar e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo. Ele quis a natureza sem a graçaa razão sem a féa liberdade sem a autoridade; às vezes a autoridade sem a liberdade. É um ‘inimigo’ que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como as principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um direito sem Deus, uma política sem Deus. O ‘inimigo’ tem trabalhado e trabalha para que Cristo seja um estranho na universidade, na escola, na família, na administração da justiça, na atividade legislativa, na assembléia das nações, lá onde se determina a paz ou a guerra.”[vii]   

O jovem “artista” (bem entre aspas) Abel Azcona, espanhol, personifica nossos tempos (para ver sua história de vida, o que ajuda a entender que tipo de personalidade estamos gerando, recomendo o excelente artigo “A ruína da Europa – e como impedi-la”, de Felipe Melo[viii]). Pois bem, este jovem, menos de dois anos mais novo que este que vos escreve, está construindo renome no mundo da “arte” (absolutamente entre aspas), sendo uma de suas mais recentes obras a construção de um painel performático no qual, utilizando 242 hóstias realmente consagradas, forma no chão a palavra “pederastia”. Eis o ponto de desprezo pelo Transcendente a que chegamos! Caminhamos, dançantes, cantantes e felizes, em direção ao abismo, e não nos damos conta disso! Poucos romanos também percebiam o real perigo que Roma trilhava antes de sua Queda. Os bárbaros já estão em nossas ruas, em nossas escolas, em nossas esquinas e, muitas vezes, o que é mais doloroso, dentro de nossa própria família, de nossa própria casa. Nossa civilização deixou de ser cristã para tornar-se uma Civilização de Bárbaros, impotente para frear os interesses escusos que vêm daqueles de dentro dela que anseiam por construir uma Nova Ordem Mundial, especialmente os metacapitalistas de umas grandes Fundações Internacionais, que financiam a derrocada da família e a Cultura da Morte, aliados aos marxistas na destruição de tudo aquilo a que chamamos de valores cristãos. Não percebe também o perigo quem vem de fora, do bloco russo-chinês e dos mulçumanos, que enchem a terra (e a Europa, em especial) com filhos e mais filhos, enquanto nós, imbuídos de um espírito consumista,  achamos que filho é um fardo, impede que tenhamos o melhor carro, as melhores férias, as melhores roupas, e assim só geramos no máximo dois... três já é demais.

Concordar com o quadro descrito não é questão de escolha: ele é incontestável! Mas diante dele, talvez você partilhe de meus sentimentos de angústia, talvez não, caro leitor. Todavia, agora, creio que ao menos você entende um pouco da desolação deste miserável que vos fala... É realmente lamentável saber o caminho que estamos trilhando e que o remédio é desprezado pelos homens! Os bárbaros que numa avalanche se abateram sobre o Antigo Império da Loba se deixaram envolver pelo Evangelho; os bárbaros atuais possuem um desprezo pela Cruz que deixaria os antigos estupefatos e corados de vergonha. “À beira de um precipício só há uma maneira de andar para frente: é dar um passo atrás”[ix] (Michel de Montaigne). Encontramo-nos diante da possibilidade de dar este passo necessário, mas a grande questão que se levanta é: teremos a coragem de fazê-lo? Mea culpas são absolutamente necessárias, e a esta altura apenas uma clamorosa mea culpa pode nos fazer voltar e reconstruir tudo!

“Suponhamos que surja em uma rua grande comoção a respeito de alguma coisa, digamos, um poste de iluminação a gás, que muitas pessoas influentes desejam derrubar. Um monge de batina cinza, que é o espírito da Idade Média, começa a fazer algumas considerações sobre o assunto, dizendo à maneira árida da Escolástica: ‘Consideremos primeiro, meus irmãos, o valor da luz. Se a luz for em si mesma boa...’. Nesta altura, o monge é, compreensivelmente, derrubado. Todo mundo corre para o poste e o põe abaixo em dez minutos, cumprimentando-se mutuamente pela praticidade nada medieval. Mas, com o passar do tempo, as coisas não funcionam tão facilmente. Alguns derrubaram o poste porque queriam a luz elétrica; outros, porque queriam o ferro do poste; alguns mais, porque queriam a escuridão, pois seus objetivos eram maus. Alguns se interessavam pouco pelo poste, outros, muito; alguns agiram porque queriam destruir os equipamentos municipais; outros porque queriam destruir alguma coisa. E há uma guerra noturna em que ninguém sabe a quem atinge. Então, aos poucos e inevitavelmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, voltam a perceber que o monge, afinal, estava certo, e que tudo depende de qual é a filosofia da luz. Mas o que poderíamos ter discutido sob a lâmpada a gás, agora teremos que discutir no escuro.” (G.K. Chesterton).[x]


Por: Diego Souza Galvão de Melo
Catholic Nerds PE

[i]  JOHNSON, Paul. La Historia Del Cristianismo. Buenos Aires, Javier Vergara Editor, 1989. P. 83-84, apud VICENTINO, Cláudio. História Geral. Scipione. São Paulo: 2000, 8ª Ed. P. 93.
[ii] ROPS, Daniel. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. Quadrante. São Paulo: 1988. P. 531.
[iii] Ibid., ibidem. P. 534.
[iv] WOODS, Thomas. Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental. Quadrante. São Paulo: 2008. P. 11.
[v] CHESTERTON. G. K. Considerando todas as coisas. Campinas: Ecclesiae, 2013, apud CHAGAS, Arthur Eduardo Grupillo Chagas. A filosofia e a ética dos contos de fada de G. K. Chesterton. Disponível em: <http://www2.pucpr.br/reol/index.php/5anptecre?dd99=pdf&dd1=15507>.  Acesso em: 17 de fevereiro de 2016.
[vi] O Instituto Plínio Corrêa de Oliveira lançou uma excelente e valiosa edição comemorativa de 50 anos da obra Revolução e Contrarrevolução, que vale muito à pena adquirir. A obra on-line também pode ser conferida no seguinte endereço: < http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verrevcontrarev.asp?id=5>.
[vii] Disponível em: < http://w2.vatican.va/content/pius-xii/it/speeches/1952/documents/hf_p-xii_spe_19521012_uomini-azione-cattolica.html>. Acesso em: 05 de fevereiro de 2016.
[viii] Disponível em: < http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/16217-2015-11-26-20-34-50.html>.
[ix] Disponível em: <http://pensador.uol.com.br/frase/MjU5NTEw/>.
[x] CHESTERTON. G. K. Hereges. Ecclesiae: São Paulo, 2014, 3ª Ed. P. 47-48.
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