20130514

Conceito de Revelação segundo o Vaticano II não está eivada de Gnosticismo


Eu vou tentar, com esse artigo, iniciar a discussão a respeito da definição da Revelação segundo a Dei Verbum e como alguns interpretam isso de maneira errada. Mais do que informar o erro e a forma correta de interpretar os textos conciliares, eu vou indicar o motivo das falhas na interpretação.

Primeiramente eu vou colar o trecho da Dei Verbum que suscitou a discórdia e os cismas para depois dizer qual a interpretação que os tradicionalistas papagueiam por aí e qual a interpretação correta. Depois eu vou dizer o motivo da interpretação errada:

14. Deus amantíssimo, desejando e preparando com solicitude a salvação de todo o género humano, escolheu por especial providência um povo a quem confiar as suas promessas. Tendo estabelecido aliança com Abraão (cfr. Gén. 15,18), e com o povo de Israel por meio de Moisés (cfr. Ex. 24,8), revelou-se ao Povo escolhido como único Deus verdadeiro e vivo, em palavras e obras, de tal modo que Israel pudesse conhecer por experiência os planos de Deus sobre os homens, os compreendesse cada vez mais profunda e claramente, ouvindo o mesmo Deus falar por boca dos profetas, e os difundisse mais amplamente entre os homens.

O trecho destacado é justamente a parte que suscitou as dúvidas. Evidente que não se trata de uma mera interpretação literal e isolada desse texto que fez com que as panelinhas anti Vaticano II, mas um sistema de fatos que os levam a acreditar nessas abobrinhas.

Eles interpretam que o fato de Deus ter se revelado, implica que a Palavra anunciada é o próprio Deus, que quem ouve o anúncio da Boa Nova, recebe a Deus. A implicação disso seria dizer que toda religião é boa, que pelo anúncio e aceitação da Palavra se recebe a Deus, isso até em detrimento da Eucaristia e em detrimento da Igreja Católica.

Só que não.

Ocorre que o texto é claro em limitar o teor dessa Revelação “como único Deus verdadeiro e vivo”. Isso é uma verdade revelada, uma informação, uma notícia. Em seguida diz que “de tal modo q eu Israel pudesse conhecer por experiência os planos de Deus sobre os homens”. Isso é mais uma verdade de fé. Deus não se revelou a Si mesmo, a Palavra não é suficiente para se conhecer esse Deus, aliás, se qualquer fonte abarcasse Deus e se nós mesmos O conhecêssemos por completo, Ele não seria Deus, porque se Ele cabe na minha cabeça, então Ele não é Deus.

Essa confusão se deve a uma interpretação tendenciosa, porque na mesma Dei Verbum fala um pouco anteriormente que “o encargo de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo”.

Por isso não basta a leitura, mas a Igreja é necessária para se tirar da Bíblia as verdades, e não o próprio Deus, que ela anuncia. O ponto chave é esse. Os próprios católicos criticam o CVII porque, em tese, tiraria a Eucaristia como momento em que se recebe a Deus e colocaria esse momento para o anúncio e escuta da Palavra.

A mesma Dei Verbum, ainda, no nº 26, fala que:

Assim como a vida da Igreja cresce com a assídua frequência do mistério eucarístico, assim também é lícito esperar um novo impulso de vida espiritual, se fizermos crescer a veneração pela palavra de Deus.

Não há espaço para interpretação diferente aí, não há espaço para dúvida. É necessário crescer no conhecimento e prática daquilo que está contido na Bíblia, segundo o que ensina o Magistério e a Sagrada Tradição. É necessário que o povo de Deus, os leigos, tenham uma afinidade maior com a Palavra de Deus, dela se alimente também, não em detrimento da Sagrada Eucaristia.

Mas o CVII fala que pode existir Salvação fora da Igreja Católica, alguém pode dizer. A resposta é clara: NÃO! Não fala. O que o Concílio fala é que “Apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, [o Concílio] ensina que esta Igreja peregrina é necessária para a salvação” (Catecismo, §846). Os outros podem se salvar, mas não sem a Igreja. Nada que não seja Católico e que não esteja em comunhão com o Papa pode entrar na Salvação, porque a Salvação nada mais é que a Igreja Católica, mas a Igreja triunfante, uma Igreja em outro sentido, em outro estágio, de outra forma, mas a mesma Igreja.

Os não-católicos se salvam porque nós, os católicos, em todas as missas, clamamos a Deus por eles, para que o sacrifício oferecido nas missas e os sacrifícios dos católicos pelo mundo afora, que dão a vida para o anúncio do Evangelho e até são martirizados, para que esse sangue inocente também faça com que Jesus olhe com misericórdia para aqueles que, sem culpa própria, ignoram o Evangelho e que a Igreja é necessária para a Salvação.

Oportunamente eu vou dizer o que significa colocar o ser humano no centro da questão teológica e o motivo de que o CVII não colocou o ser humano no centro da questão teológica, provando com a Bíblia e documentos conciliares que a Igreja, muito embora faça o bem, não é uma ONG meramente humanitária.
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