20130915

Dogmas: Quebrando preconceitos

                                                                              



  OBS.: Submeto todos estes escritos ao juízo da Santa Mãe Igreja Católica Apostólica Romana! Em nada quis contrariar seus ensinamentos, e se por acaso o fiz, não foi esta minha intenção, e revogo TUDO o que contrariar a sua Santa Doutrina, o seu Sagrado Depósito da Fé.

 “Dogma”... talvez não haja palavra, nos tempos em que vivemos, que mais soe com o sentido de retrocesso, negatividade e oposição a um pensamento “crítico”! Certamente, caso você, caro leitor, faça a experiência de caminhar por um campus universitário e aleatoriamente escolher certos jovens para perguntar-lhes se eles se consideram pessoas dogmáticas, com plena certeza a maioria responderia negativamente sob os protestos de não serem fechados, mas sim de se considerarem “mente aberta”... eis o sentido pejorativo que a palavra dogma acabou adquirindo em nossos tempos!

Mas, afinal, o que seria um dogma? E mais: poderíamos falar em conhecimento dogmático? Respondamos ao primeiro questionamento... Segundo o Aurélio, Dogma seria um “ponto fundamental e indiscutível de doutrina religiosa e, p. ext., de qualquer doutrina ou sistema”[1]. Até aqui tudo bem, está tudo muito claro, está tudo muito explícito! A resposta ao segundo questionamento, contudo, dará um pouco mais de trabalho, mas vale a pena, pois com ela quebraremos o preconceito que cerca a palavra sobre a qual estamos escrevendo este artigo! Tomaremos por base a obra Teoria do Conhecimento, do filósofo Johannes Hessen. Tratando acerca da possibilidade de conhecimento, a obra apresenta o Dogmatismo, o Ceticismo, o Subjetivismo, o Relativismo, o Pragmatismo e o Criticismo como correntes. O autor tece comentários sobre cada uma, fazendo as críticas que julga necessárias. Ele descreve que o conhecimento se dá na relação entre sujeito e objeto! Afirma que o sujeito apreende uma “imagem” do objeto a ser conhecido! O sujeito “enxerga” o objeto e do mesmo capta uma “imagem”! Assim, como se dá a classificação do conhecimento em verdadeiro ou falso? O aludido filósofo nos diz que não é o objeto que será classificado como “verdadeiro” ou “falso”, pois o objeto, em si mesmo, não é nem verdadeiro nem falso, é apenas objeto! Assim, verdadeira ou falsa será a “imagem” captada pelo sujeito acerca do objeto! Mas, Hessen faz uma pergunta interessante: será o sujeito realmente capaz de apreender o objeto? Cada uma das seis correntes expostas vai dar sua resposta, mas apenas o Dogmatismo e o Criticismo defendem que uma verdade objetiva pode ser obtida e, portanto, só consideraremos elas!

Hessen critica o dogmatismo porque, segundo ele, o dogmático não enxerga o fato de que o conhecimento se dá numa relação entre o sujeito e o objeto, como expusemos acima. Ele afirma que para o dogmático, o objeto de conhecimento lhe é dado como tal. Ele ainda diz:

“[...] Segundo a concepção do dogmatismo, os objetos da percepção nos seriam dados diretamente, corporeamente, e assim também os objetos do pensamento. Num caso desconsidera-se a percepção por meio da qual determinados objetos nos são dados; no outro, desconsidera-se a função pensante. O mesmo ocorre quanto ao conhecimento dos valores. Também os valores estão, para o dogmático, pura e simplesmente aí. O fato de pressuporem uma consciência valorativa permanece, para ele, tão oculto quanto o fato de todos os objetos de conhecimento exigirem uma consciência cognoscente. Aqui como lá, ele desconsidera o sujeito e sua função.” [2]

Hessen parece partilhar da concepção de que o dogmatismo não passa de uma, digamos assim, “contemplação ingênua e simplória” que o homem concebe acerca de determinado objeto, contemplação esta que encontra fundamento em sua razão, mas essa mesma razão, que sustenta o conhecimento obtido acerca do objeto não é questionada, não é posta em dúvida! O que aparenta é, contudo, que ele busca restringir essa maneira de ver o dogmatismo ao dogmatismo metafísico.
Ao falar do criticismo, cujo maior expoente foi o filósofo Kant, com sua obra “crítica da Razão Pura”, o referido pensador assim expõe:

Esse ponto de vista intermediário entre o dogmatismo e ceticismo é chamado de criticismo (de krínein, examinar, pôr à prova). Ele compartilha com o dogmatismo uma confiança axiomática na razão humana; está convencido de que o conhecimento é possível e de que a verdade existe.
Enquanto, porém, essa confiança induz o dogmatismo a aceitar de modo, por assim dizer, inconsciente toda afirmação da razão humana e a não reconhecer nenhum limite para a capacidade humana de conhecimento, o criticismo, aproximando-se do ceticismo, junta à confiança no conhecimento humano em geral uma desconfiança com relação a qualquer conhecimento determinado. Ele põe à prova toda afirmação da razão humana e nada aceita inconscientemente. Por toda parte pergunta sobre os fundamentos, e reclama da razão humana uma prestação de contas. Seu comportamento não é nem cético nem dogmático, mas criticamente inquisidor - um meio termo entre a temeridade dogmática e o desespero cético. Germes de criticismo existem em todo lugar onde haja reflexões epistemológicas. É o que ocorre, na Antiguidade, com Platão e Aristóteles e também com os estóicos; na Idade Moderna, com Descartes e Leibniz e, mais ainda, com Locke e Hume. O verdadeiro fundador do criticismo, entretanto, é Kant, cuja filosofia é chamada exatamente assim. Kant chegou a esse ponto de vista depois de haver passado tanto pelo dogmatismo quanto pelo ceticismo. Ambos os pontos de vista são, segundo ele, unilaterais. O primeiro tem "uma confiança cega na capacidade da razão humana"; o segundo é "a desconfiança adquirida, sem crítica prévia, contra a razão pura". O criticismo supera essas duas unilaterais idades. Ele é "aquele método da atividade de filosofar que investiga tanto a fonte de suas afirmações e objeções quanto os fundamentos sobre os quais repousam; um método que nos dá a esperança de atingir a certeza". Comparado aos outros, esse ponto de vista aparece como o mais maduro. "O primeiro passo nos assuntos da razão pura, característico de sua própria infância, é dogmático. 0 segundo passo é cético e testemunha a cautela de um juízo escolado pela experiência. Agora, porém, é necessário um terceiro passo, o de um juízo adulto e viril".” [3]

Hessen, contudo, pretende traçar uma diferença entre o criticismo de uma maneira geral e o criticismo tal qual apresentado por Kant. Ele acaba por defender essa corrente, demonstrando que é a mesma quem possibilita a Teoria do Conhecimento. Interessantes são suas palavras, claras a respeito do posicionamento que põe no manual: “Quanto à questão sobre a possibilidade do conhecimento, o criticismo é o único ponto de vista correto” (HESSEN, 2000).
Então, nobre leitor... alguma dúvida sobre qual corrente o filósofo Johannes Hessen prefere?
Sigamos adiante... sem querer, aqui, tentar refutar de maneira completa, mas apenas resumida, as colocações do filósofo analisado, façamos alguns comentários ao dogmatismo e ao criticismo. Primeiramente, pela ordem, falarei a respeito do dogmatismo. Hessen se coloca na esteira de conceber o dogmatismo como “ingenuidade”, de maneira mais específica o dogmatismo metafísico. Uma pergunta que vale a pena ser feita é: o dogmatismo, sob certas circunstâncias, antes de ser uma ingenuidade, não seria o reconhecimento da reta razão de que ela mesma, a reta razão, é LIMITADA para determinados conhecimentos!?
Exemplifico: São Tomás de Aquino, já há quase mil anos, demonstrou racionalmente a existência de um Deus de cinco maneiras distintas, para isso utilizando apenas a razão, as quais ficaram conhecidas como “Cinco Vias Tomistas”, três das quais com fortíssimo embasamento na filosofia aristotélica. Demonstrou que, racionalmente, não se pode negar a existência de Deus! Até aí, a razão foi capaz de alcançar. Contudo, em sua sede de conhecimento, é normal que o ser humano, uma vez convencido racionalmente da existência de Deus, se questione: “mas, que Deus é este? Minha razão afirma que ele existe e só pode ser um, mas ao resto ela não consegue responder: onde ele está? Como posso chamá-lo? Posso encontrá-lo? Ele veio, vem, ou não vem ao meu encontro?...” São questionamentos que o ser humano normalmente se faz ao se deparar com as cinco vias, mas para os quais a razão não é capaz, apenas por si, de fornecer uma resposta. Contudo, contemplemos a possibilidade de esse Deus INFINITO vir ao encontro do homem e Ele mesmo se revelar para iluminar sua razão LIMITADA, revelando-se, por exemplo, como Deus Uno e Trino!
A questão que se coloca agora é: se Deus é sumamente Bom (e uma das cinco vias mostra racionalmente isso) não se pode conceber que esse Deus minta, caso contrário não seria sumamente Bom; pois bem, minha razão, capaz de conceber logicamente a existência de Deus, não é capaz de, por ela mesma, conceber ser ele Uno e Trino! Que Deus é Uno e Trino é um dado ao qual eu só posso ter acesso por REVELAÇÃO! Portanto, a Trindade é um dogma de fé! Ingênuo!? Não! Sob certas circunstâncias, sem precisar negar a razão, o dogmatismo pode simplesmente compreender os limites da inteligência humana (e é um fato inconteste que ela é limitada) sem necessariamente negar a possibilidade de se chegar a conhecimentos aos quais ela, por si só, não possa chegar! Assim, completamente compreensível que São Tomás, endossando e confirmando com clareza a Tradição da Igreja Católica, proclamava ser a Fé e a Razão duas asas com as quais a alma voa para Deus!
Feitos esses esclarecimentos acerca do dogmatismo, falemos agora um pouco sobre o criticismo. É interessante que Hessen coloque o criticismo como, digamos assim, a mais coerente das correntes! Segundo ele, foi Kant o fundador dessa corrente. O que Hessen não expõe é que Kant, autor de “Crítica da Razão Pura”, nesta mesma obra, lançou uma máxima que é aceita por muitos criticistas e cientificistas sem questionamentos, mas que podemos comparar ao ceticismo, ao subjetivismo, ao relativismo e ao pragmatismo. Kant assim “determina”: só podemos conceber como verdade aquilo que pode ser submetido à experimentação!
Ocorre que esta máxima exposta por Kant também pode ser questionada pela própria lógica. Assim, podemos lançar a pergunta: “Sr. Kant, esta sua conclusão foi, ela mesma, submetida à experimentação?”[4].
Hessen, ao que parece, tenta fazer o criticismo escapar a esse tipo de questionamento, ao expressar-se da seguinte forma:

“Essa objeção seria pertinente caso a teoria do conhecimento tivesse a pretensão de ser totalmente livre de pressupostos, isto é, se quisesse provar a possibilidade do conhecimento anteriormente a tudo mais. Seria, de fato, uma contradição alguém querer salvaguardar a possibilidade do conhecimento pela via do conhecimento. No primeiro passo do conhecimento, esse alguém já pressuporia aquela possibilidade. Mas a teoria do conhecimento não pretende estar livre de pressupostos nesse sentido. Muito pelo contrário, parte do pressuposto de que o conhecimento é possível. A partir desse ponto de vista, envereda por um exame crítico dos fundamentos do conhecimento humano, de seus pressupostos e condições mais gerais.”[5]

Com esse seu arremate, Hessen, em nossa concepção, além de não responder à objeção que é colocada ao criticismo, acaba fazendo com que essa corrente seja dotada, ela mesma, daquilo que ele acusa pertencer ao dogmatismo (e vimos que o dogmatismo não precisa ser assim): a falta de consciência dos limites da razão humana!
SIM, concebemos a possibilidade de conhecimento de verdades absolutas, objetivas! É possível conhecer verdades pelo uso da razão e, consequentemente, também da experimentação, com técnicas científicas... Mas é preciso reconhecer que a razão humana é limitada, sem que com isso se descarte a possibilidade de a mesma chegar a conhecer verdades que, por si só, é impossível...
Pois bem, leitor amigo (se assim me permites chamá-lo), é com esta consciência de olhar para si enxergando limitação e olhar para o Alto enxergando o Infinito, que a Igreja acolhe as Revelações d’Aquele que se dignou a descer para ter conosco e nos falar de Si mesmo!
Para que o homem possa conhecer a Deus, Ele próprio se vale, até onde pode se valer, da racionalidade humana! Assim, normalmente, um Dogma proclamado é o conhecimento exposto pelo encontro do divino com o humano, mas sempre por iniciativa do divino, pois foi Deus quem fez o homem, lhe deu a Razão e desceu ao seu encontro quando o mesmo caiu no pecado! Por Sua iniciativa e pelo nosso bem, Ele nos atrai: Criaste-nos para vós, Senhor, e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em vós”. (Santo Agostinho).
Pelo exposto, acertadamente expõe a Igreja, no Catecismo:

§88 O Magistério da Igreja empenha plenamente a autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando, utilizando uma forma que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, propõe verdades contidas na Revelação divina ou verdades que com estas têm uma conexão necessária.
§89 Há uma conexão orgânica entre nossa vida espiritual e os dogmas. Os dogmas são luzes no caminho de nossa fé que o iluminam e tornam seguro. Na verdade, se nossa vida for reta, nossa inteligência e nosso coração estarão abertos para acolher a luz dos dogmas da fé.
§90 Os laços mútuos e a coerência dos dogmas podem ser encontrados no conjunto da Revelação do Mistério de Cristo. “Existe uma ordem ou 'hierarquia' das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente.”[6]

Feitas essas considerações preliminares, o Catolic Nerds espera que tenhas “quebrado” preconceitos sobre “dogmas”... ficará mais fácil para compreendê-los e aceita-los à medida que, nos próximos artigos, cada um dos dogmas católicos forem sendo aqui expostos e explicitados de maneira detalhada!
Por ora, isso não é tudo, mas creio já ser o bastante! Que a Paz do Senhor Jesus esteja sempre conosco!

Por: Diego Galvão


NOTAS:

[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o minidicionário da língua portuguesa dicionário. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira; coordenação de edição Marina Baird Ferreira; equipe de lexicografia Margarida dos Anjos. 7 ed. Curitiba: Ed. Positivo, 2008, pág. 327.

[2] HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2000, pág. 24.

[3] HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2000, pág.. 32-33.

[4] JÚNIOR, Paulo Ricardo de Azevedo. Teodicéia: Uma resposta ao mal. Aula 01: Introdução ao curso de Teodicéia. Cuiabá, 2011.

[5] HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2000, pág. 34.

[6] Catecismo da Igreja Católica. Edição Típica Vaticana. São Paulo: Loyola, 2000, págs. 36-37.

 


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