20140214

A importância da mortificação na vida do cristão – “O caminho da perfeição passa pela CRUZ”.


"Se, por ignorância, fiz o contrário, revogo tudo e submeto todos os meus escritos ao julgamento da Santa Igreja Romana" (Santo Tomás de Aquino)
Salve Maria!
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Quando decidimos dizer “sim” ao chamado de santidade que Deus nos dá, é evidente que o diabo não nos deixará em paz. Ele fará de tudo para nos distanciar dos caminhos de Deus e da vida em Cristo na Sua Igreja.
As tentações são das mais variadas e cada vez mais fortes, à medida da nossa vontade e esforço de ser santos. Atingindo nossa vida de oração, o diabo é capaz de destruir todas as esferas da vida espiritual (oração, sacramentos, caridade etc). Uma vida de oração assídua e a participação constante nos Sacramentos (em especial a Eucaristia e a Confissão) são essenciais como instrumentos para estarmos em estado de graça, de amizade com Deus, e buscarmos, em Deus, a santidade.
Além da vida de oração e da vida sacramental, a prática ascética e de mortificação são de suma importância para os progressos na vida espiritual. E isto quem diz não sou eu, mas a Igreja no CIC §2015: “O caminho da perfeição passa pela cruz. Não existe santidade sem renúncia e sem combate espiritual. O progresso espiritual envolve ascese e mortificação, que levam gradualmente a viver na paz e na alegria das bem-aventuranças.


A ascese é a renúncia ao prazer ou a não satisfação de alguma necessidade básica para atingir objetivos espirituais. A mortificação, por sua vez, consiste em uma forma de ascetismo na qual se pratica um “sacrifício” mental ou físicopara se unir à Paixão de Cristo, bem como com finalidade de expiação, conversão, obtenção de arrependimento, santificação e para subjugar a carne.

Contudo, hoje observamos que muitos – inclusive de dentro da Igreja – têm o costume de dizer que práticas ascéticas e de mortificação são coisas ultrapassadas para nosso tempo, como se tais práticas devessem ser restritas à Idade Média principalmente. Alguns – e eu já vi isso! – chegam ao absurdo de suspeitar do equilíbrio emocional e mental dos grandes santos que praticaram mortificações.
Claro, o que esperar de um tempo em que a espiritualidade é colocada em quarto ou quinto plano e a ciência psicológica explica tudo? Afinal vivemos num tempo no qual se foge de sacrifícios, de intempéries, de desconfortos e só se busca o prazer. Neste contexto, o Cristianismo – que oferece a CRUZ e não os prazeres e pompas – é tido, pelos neopagãos e inimigos de Cristo e Sua Santa Igreja, como algo obsoleto. Assim, critiquemos o “maluco” que usa o cilício, o “desequilibrado” que usa a disciplina, o “louco” que pratica jejum, o “desvairado” que é celibatário, a “débil” que dorme algumas vezes no chão etc, etc. E assim se inicia a chamada “espiritualidade do NÃO PRECISA”.[1] Ora, em pleno Século XXI não precisa de mortificação e ascese! Assim pensam os insensatos. Mas a realidade é que vivemos em batalha espiritual, carne versus espírito, e assim sendo, a mortificação será sempre de grande utilidade.
Além de observarmos o incentivo a uma vida ascética e de mortificação no Catecismo da Igreja, também observamos o mesmo nas Escrituras Sagradas e no patrimônio espiritual da Igreja ao longo desses mais de 2000 anos. São instrumentos eficazes para que a alma prevaleça sobre o corpo! A vida dos santos nos mostra isto! Ademais, a prática de mortificação não exclui a prática de caridade nem a oração, mas todas são complementares e podem ser praticadas simultaneamente sem a necessidade de escolhermos uma em detrimento de outra.



              Ainda no CIC, parágrafos 1434 a 1439 a Igreja fala sobre as diferentes formas de penitência. E sobre a ascese o CIC fala nos seguintes parágrafos: 1734 (domínio da vontade e ascese), 2340 (fidelidade Às promessas do Batismo e ascese) e no já citado parágrafo 2015 (progresso espiritual e ascese). Mortificar-se em intenção do próprio arrependimento e dos pecadores, da própria conversão e a dos pecadores, em prol das almas do purgatório, pela expiação dos pecados, em desagravo à glória de Deus que foi ultrajada, bem como se mortificar para unir-se mais ao Sacrifício Redentor de Cristo. Mortificar-se para esvaziar-se a si mesmo e permitir que Cristo tome a frente e tudo governe. Assim como a vela que para portar a luz deve derreter devido ao fogo.

Não se pode menosprezar nem desconsiderar as práticas de mortificação que foram instrumentos de santificação de tantos santos da Igreja. Antes, vê-los como bons meios de progresso espiritual e santificação, desde que nos limites e possibilidades de cada um, sem excessos. Vê-los como modo de impor limites ao corpo (que quer nos levar aos prazeres e comodismos) para que este não venha a subjugar a alma. Portanto, a mortificação e a ascese – juntamente com oração e Sacramentos - são os meios pelos quais conquistamos os dons espirituais necessários a nossa santificação (submissão, humildade, desprezo de si mesmo e do mundo, piedade, castidade etc).
Afirma o Padre Antonio Royo Marin no seu livro “Teología de la perfección Cristiana”: “Ao diretor espiritual corresponde vigiar os passos da alma, não impondo-lhe jamais sacrifícios superiores às suas forças atuais, mas guardando-se muitíssimo de cortar suas ânsias de imolação, obrigando-a a arrastar-se como um sapo em vez de deixá-la voar como as águias. […] O cilício, as disciplinas, as "cadenillas", os jejuns e abstinências, a escassez de sono e outras austeridades deste estilo foram praticadas por todos os santos, em maior ou menor escala; segundo suas forças e disposições atuais, têm que praticá-las todas as almas que aspirem seriamente à santidade. Não há outro caminho para chegar a ela que aquele que nos deixou traçado Jesus Cristo com suas pegadas ensaguentadas até o Calvário.”
Ao praticá-las se deve saber o sentido que têm, deve-se ter um bom propósito (expiação, conversão, penitência, união a Cristo, purificação das almas do purgatório, progressos espirituais com cultivo de virtudes etc) e, sobretudo, a orientação de um diretor espiritual que tenha sensibilidade o suficiente para compreender e valorizar as práticas de mortificação vendo-as como uma escola de santidade.
Outro ponto importante é o discernimento que deve haver para as práticas, pois nem todos temos os mesmos limites, então nada de forçar os limites! Mortificações (do corpo) podem ser feitas de várias maneiras: cilício, disciplina, a renúncia por certo tempo a alguns confortos físicos, rezar de joelhos etc. A mortificação deve ser praticada – mais especificamente com relação ao cilício e à disciplina - sem que haja derramamento de sangue e sem prejudicar a saúde, cada pessoa segundo seus limites e sua vocação. Além do que deve ser praticada com amor, piedade e discrição.
Mais propício ainda é a prática da mortificação quando se é consagrado a Cristo pelas mãos da Santíssima Virgem Maria pelo método de São Luís Maria G. de Montfort para que nossa Mãe Santíssima empregue os méritos das nossas mortificações às almas que mais precisam. É um grande gesto de caridade!
Assim, a mortificação é essencial à vida de nós católicos, desde os primórdios da Igreja e, sim, ainda hoje! Mortificação + oração + Sacramentos, eis uma boa fórmula para viver em santidade e amizade com Deus. É o que vemos na vida dos santos, é o que a Igreja nos orienta. Não nos deixemos levar pela “espiritualidade do NÃO PRECISA”! Usemos de todas as armas possíveis para vencer a batalha entre carne e espírito, corpo e alma. “O corpo é uma criança mimada e a alma faz o papel dos pais que devem educar essa criança.” (Padre Paulo Ricardo na aula “Formas de penitência e suas razões”)
Pax Domini sit semper vobiscum!

Por Humberto Ramón
       Catolics Nerds - PE


[1] Sobre o tema, além das citações do CIC que fiz no corpo do artigo, é bom assistir as seguintes aulas de Padre Paulo: “Formas de penitência e suas razões” e “A Igreja ainda aprova o uso do cilício?”. Ademais, estudar a vida dos santos: São João da Cruz, São Francisco de Assis, Santa Teresinha do Menino Jesus, São Josemaria Escrivá, São Padre Pio de Pietrelcina, Beato João Paulo II. Todos estes são exemplos de ascetas.
[2] Termo usado por Padre Paulo Ricardo na seguinte palestra: http://www.youtube.com/watch?v=hLPqAdh9ohM 
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