20150306

A consciência em busca da Verdade

 domjoseruyIntrodução

Na Carta Encíclica Fides et Ratio, sobre as relações entre fé e verdade, quero me deter no Capítulo terceiro, “caminhar à procura da verdade”, numa perspectiva moral, vez que é o meu campo de conhecimento.


Neste capítulo, o Santo Padre, referindo-se a uma outra Encíclica de seu Pontificado, Veritatis Splendor, afirma que “Não há moral sem liberdade (...) Se existe o direito de ser respeitado no próprio caminho em busca da verdade, há ainda antes a obrigação moral grave para cada um de procurar a verdade e de aderir a ela, uma vez conhecida”1.


Vivemos em um tempo com crises marcadas em todos os setores. Outros afirmam que estamos vivendo “mergulhados numa crise sem precedentes”. Fato é que não existe crise institucional sem que haja uma crise pessoal.


“Em meio às rápidas transformações de nossa sociedade, identificamos uma crise que é do humano. Ela é também identificada como uma crise ética por excelência. Os fenômenos desta crise, mesmo os aparentemente exteriores, nos atravessam por inteiro e profundamente. Esta crise acabou criando um desequilíbrio das bases vitais do humano, atingindo suas raízes mais profundas, o seu próprio ethos. Face a ela, urge resgatar o vital humano”2.


Esta crise do humanum coloca em risco o próprio ser, sua realidade ontológica; suas relações (inclusive com Deus) e suas escolhas o que, por conseguinte, afeta também a escolha e vivência de valores.


Retomando a Fides et Ratio, no mesmo capítulo objeto de nossa reflexão, o Santo Pontífice afirmava: “ Por isso, é necessário que os valores escolhidos e procurados na vida sejam verdadeiros, porque só estes é que podem aperfeiçoar a pessoa, realizando a sua natureza”.


Estamos diante de uma instância – o ethos – que precede as regulações objetivas das morais instituídas, as regulamentações positivas do direito e exerce uma função ‘arqueológica’ na própria produção da ética.


“Se quisermos compreender concretamente as normas sociais, as prescrições morais e as regras jurídicas, não podemos deixar de as referir a este fundo donde elas procedem e donde elas continuam tirando ao mesmo tempo sua eficacidade prática e seu sentido. As normas práticas ou jurídicas só são sociologicamente interpretáveis quando referidas ao seu ethos concreto”3.


A crise de hoje, antes de ser uma crise de paradigmas, revela-se uma crise que nos desestabiliza em nossa base mais profunda, o ethos. Vivemos numa crise na fragmentação do ethos. Nossa ‘matriz’ de percepção, de avaliação e de ação não nos dá mais a base consensual de sustentação comum, enquanto uma evidência de si.


I. A Consciência


“A consciência moral é irredutível a qualquer outra coisa, por mais nobre que seja, nem pode ser calada, sob pena de o homem perder toda dignidade e de se perder todo o edifício da vida humana. Dizemos irredutível, pois a consciência é o último e definitivo reduto humano interior. Se a consciência moral for negada, nega-se juntamente com ela todo o “eu”, corrompendo-se e rompendo-se o sujeito”4.


Por essa razão, a consciência foi entendida como voz. “No fundo da consciência, o ser humano descobre uma lei (...), é como se fosse uma voz que lhe falasse ao coração (...) A consciência é (...) o sacrário da pessoa, em que se encontra a sós com Deus e onde lhe ouve intimamente a voz”5.


Se a consciência é a instância última e decisiva do fazer humano, o é porque a partir desse espaço sagrado e inviolável, ele é chamado e impelido. O homem é chamado – vocacionado (de vocare) pelo seu próprio nome para ser e fazer. Obediente à voz interior, à voz da verdade, ele deve agir com responsabilidade. “Se eu não responder por mim mesmo, quem irá responder por mim?” Indagava Levinas, que em muitas páginas de seus textos insiste sobre a responsabilidade vulnerável.


Ainda São João Paulo II, num outro documento de seu magistério, alertava: “Nenhuma autoridade humana tem o direito de intervir na consciência de algum homem. Ela é o testemunho de transcendência da pessoa também nos confrontos da sociedade e, como tal, é inviolável. Ela, porém, não é um absoluto colocado acima da verdade e do erro; pelo contrário, sua íntima natureza implica uma relação com a verdade objetiva, universal e igual para todos, que todos podem e devem procurar. Nesta relação com a verdade objetiva a liberdade de consciência encontra a sua justificação”6.


II. A Verdade


Um dicionário de Teologia assim faz uma nobre e bela definição em que intitula o homem como “um ser para a verdade e na verdade” (...) O homem se mede pela verdade e é medido por ela. Este ser, que é centro e senhor do universo, não está acima de tudo, não é dono e nem árbitro de uma existência carente de significado. Ele se acha debaixo da verdade, da qual todo o ser e todo existir recebem sentido e valor. A verdade faz a vida: fundamenta-a, dirigi-a, finaliza-a. O homem a busca e a acolhe como promessa de liberdade e criatividade”7.


Na Encíclica Fides et Ratio, o Santo entoa um cântico à razão humana.
Especialmente quando ela se organiza em seu saber filosófico. O documento começa com estas palavras: “A fé e a razão são como duas asas com as quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade” (n. 1)


Não se furta, porém, o autor, em se deter na análise de algumas “correntes de pensamento, hoje muito difundidas”, nas quais se manifesta a atitude de difusa desconfiança ante as possibilidades da razão humana. São sublinhadas as seguintes: o ecletismo (n. 86), o historicismo (n. 87), o cientificismo (n.88), o pragmatismo (n.89) e o nihiilismo (n.90). Todas essas correntes de pensamento motivam uma forma de cultura denominada “pós-moderna” e que vai incidir numa “crise de sentido” (n.81).


A desconfiança diante da razão humana tem repercussões na fundamentação da compreensão da verdade e, consequentemente, da moral. A Encíclica Fides et Ratio (n.98) retoma as afirmações feitas na Encíclica Veritatis Splendor (n.32) e observa que a crise moral deriva da “crise em torno da verdade”.


Nesta outra Encíclica em que se pode considerar o mais precioso documento pós-conciliar sobre Teologia Moral, o saudoso Papa afirmava: “ Algumas tendências da teologia moral hodierna, sob a influência das correntes subjetivistas e individualistas agora lembradas, interpretam de um novo modo a relação da liberdade com a lei moral, com a natureza humana e a consciência, e propõe critérios inovadores de avaliação moral dos atos: são tendências que, em sua variedade, coincidem no fato de atenuar ou mesmo negar a dependência da liberdade da verdade”8.


Por isso, lembrava-nos o autor, “de qualquer forma, é sempre da verdade que deriva a dignidade da consciência: no caso da consciência reta, trata-se da verdade objetiva acolhida pelo homem; no da consciência errônea, trata-se daquilo que o homem errando considera subjetivamente verdadeiro”9.


A consciência, lembra-nos, como juízo de um ato, não está isenta da possibilidade de erro.


III. A Sã Consciência em busca da Verdade


De uma consciência sadia se requer que seja reta, sincera e verídica. Sem estes requisitos, torna-se uma consciência errônea e subjetivista.


“Não se pode jamais identificar a consciência do homem com a autoconsciência de si mesmo”, dizia Bento XVI em sua belíssima obra ‘O elogio da Consciência. A verdade interroga o coração’.10


A consciência errônea protege o homem das onerosas exigências da verdade, afirma o Papa Emérito. Segundo ele, a concepção da consciência não é abertura do homem ao fundamento de seu ser. Isto é a subjetividade em que o homem foge de si e esconde-se. Ser convicto das suas próprias opiniões como também adaptar-se a dos outros, faz com que o homem seja reduzido as suas convicções superficiais, continua Ratzinger.


Existe uma verdade maior cuja razão não se cansa de buscar. Sem a fé, porém, esta Verdade Revelada pode não ser alcançada. Sobre a relação consciência e verdade, o Cardeal Newman, célebre pela sua conversão à Igreja Católica, dizia em versos compostos em 1833: “Amava escolher e entender a minha estrada. Agora, ao invés, rezo: Senhor, guia-me”.


Neste livro mencionado e ainda não traduzido, Bento XVI afirma que “existe um dinamismo interno da verdade. No Evangelho de João, o Senhor diz ao Pai: ‘ Eu lhes dei a tua palavra (...) Consagra-os na verdade’ (Jo 17,14-17). A verdade é Cristo. O fato cristológico não faz supérflua a nossa razão. Pelo contrário, nos faz responder de maneira devida ao chamado de Cristo. De outra parte o compromisso do próprio pensamento não substitui a Palavra viva, Cristo. Na luz de Jesus aparece também o esplendor da verdade nas criaturas”.11


Esplêndida é a referência que o Papa Emérito faz de Tomás de Aquino ao afirmar “que neste santo, amor de verdade e amor de Jesus são uma única coisa indivisível em sua figura espiritual: amando Cristo, ele amou a verdade; criando uma relação sempre mais profunda com Cristo ele recebeu a força consagrante da verdade”.


Numa legenda sobre o Doutor Angélico, se diz que o Cristo falou a ele: “Você escreveu muito bem a meu respeito, Tomás. O que deseja? Ao que ele respondeu a Jesus: “Nada mais do que Ti”. Esta é a síntese do pensamento e da vida deste Doutor da Igreja. A sua vida era o desejo de Cristo, desejo de Deus, desejo da verdade. “Nada mais do que a Ti”.


Com estas palavras respondemos bem a grande promessa do Evangelho de João: “ Por eles me consagro a mim mesmo para que sejam também eles consagrados na verdade”. (Jo 17,19).


Dom José Ruy G. Lopes, OFM Cap.


Bispo de Jequié BA - Aula inaugural da Faculdade de Filosofia de Feira de Santana BA.


__________


1. João Paulo II, Veritatis Splendor, 25.
2. Agostini, Nilo - Ética Cristã e desafios atuais, Vozes 2002.
3. B. Quelquejeu, Ethos historiques et normes ethiques”, 1983, pg 73.
4. Bennássar, Bartolomeu – Ética Civil e Moral Cristã, Paulinas, 2002.
5. Gaudium st spes, 16.
6. Se vuoi La pace rispetta La coscienza di ogni uomo, n.1. Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Cittá Del Vaticano, 1992, p. 1559.
7. Dicionário de Teologia Moral, Paulus, SP, 1997.
8. João Paulo II, Veritatis Splendor, pg. 59.
9. Idem, pg. 99.
10. Ratzinger, Joseph – L’elogio della coscienza. La veritá interroga Il cuore. Ed. Cantagalli, 2009.
11. Idem, pg. 83.


Foto: Acervo Mitra Diocesana de Jequié

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