20150615

Santa Inês – Vida e Obra

santa-inesEm Roma, aproximadamente no ano 291, nasce Inês (ou Agnes), filha única de seus pais, na poderosa, nobre e rica família Cláudia. Seu nome, com razão, significa em grego pura e casta, enquanto em latim quer dizer cordeiro (agnus). Talvez por isso seja representada com a palma, símbolo do martírio, e junto a um cordeirinho; o fato é que sua vida e martírio também foram marcados por uma grande mansidão, como um cordeiro que não reage quando é levado ao matadouro, a exemplo de Cristo, seu esposo.


Seus pais a criaram na fé cristã. Piedosa, ia cotidianamente visitar as catacumbas onde estavam sepultados os mártires e dedicava-se às esmolas frequentemente. Tendo haurido desde cedo este tesouro, precocemente decidiu consagrar secretamente a Cristo sua virgindade, e não desposar outro homem nesta terra. Entretanto, sendo surpreendentemente bela, de longos cabelos ruivos, rica e bem nascida, acabou atraindo a atenção e despertando a paixão de muitos pretendentes, dentre estes, Fúlvio Procópio, filho de Simprônio, prefeito de Roma. Qual moça da cidade recusaria as glórias de um casamento tão vantajoso? Entretanto, às investidas do rapaz, Inês responde: “não o posso aceitar porque já amo a outro e a ele me prometi; sua riqueza não pode ser comparada a nenhum outro. Vede o lindo anel que me pôs no dedo e com que brilhantes jóias me ornou! Seu corpo tocou o meu, e meus lábios provaram o leite e o mel". O apaixonado não se conforma e passa a segui-la secretamente, e assim descobre que Inês era cristã. Naqueles tempos, isto era praticamente uma sentença de morte.


Desconsolado com as negativas da menina, o rapaz adoece e chega a ficar de cama. Diz em seus delírios febris que se não a tiver, morrerá. Seu pai, Simprônio, aflito pela saúde do filho, a procura em sua casa, insiste com ela para que aceite o jovem como marido. Argumenta, promete, mostra-lhe a honra que este matrimônio pode lhe dar. Insta com ela para que abandone a sua fé e preserve a sua vida, já que é tão jovem. A garota, entretanto, é irredutível e responde: "sou jovem, é verdade, mas a fé não se mede pelos anos e sim pelos sentimentos. Deus mede a alma, não a idade. Quanto aos deuses, podem até ficar furiosos, que eu não os temo. Meu Deus é amor". Irado, sentindo-se impotente perante uma simples criança e querendo vingar-se pelo filho, Simprônio a denuncia como cristã aos seus superiores.


Inês é levada a julgamento pelas autoridades, e reafirma diante delas sua fé. Por ser de origem nobre, não é imediatamente condenada; segue-se o protocolo da época para estes casos: galanteios, promessas, argumentações. Nada disso surtindo efeito, seguiram-se as ameaças de tortura e morte. A menina, diante de tudo, permanece impassível; então é condenada a juntar-se às vestais, sacerdotisas de Vesta, e já que deseja permanecer virgem, prestar culto perpétuo a esta deusa pagã em seu templo junto às outras moças. A isto, responde a Simprônio: “se recusei seu filho, que é um homem vivo, como pode pensar que eu aceite prestar honras a uma estátua que nada significa para mim? Meu esposo não é desta terra”. E diante da estátua à qual foi levada, ergue a mão e faz o sinal da cruz. Também recusa-se a pôr incenso na pira da deusa pagã, e acrescenta: "não convém às virgens consagradas a Cristo portar tais lâmpadas, porque esta chama apaga a luz, e este fogo a fé extinguirá. Feri-me, e o meu sangue derramado apagará este braseiro."


Sentindo-se humilhado em seu poder pela firmeza da garota e pela sua pública demonstração de fé, o prefeito condena-a a ser jogada em um prostíbulo, para que lhe fosse arrancada à força a virgindade que com tanto zelo guardava. A esta sentença, a menina responde com firmeza: “Jesus Cristo vela sobre a vida e a pureza de sua esposa e não permitirá que lha roubem. Ele é o meu defensor e abrigo. Podes derramar o meu sangue, nunca, porém, conseguirás profanar o meu corpo, que é consagrado a Cristo”.


Ela então tem suas roupas arrancadas à força e para que seja humilhada é levada nua pelas ruas até o prostíbulo onde deveria ser jogada; porém, seus cabelos crescem miraculosamente, protegendo seu corpo consagrado a Deus dos olhares pecaminosos. Lá, recebe de um anjo uma túnica, para que não fique despida.


Já no prostíbulo, Inês é cercada por uma luz celestial, que intimida os que tentam tocá-la; transtornado, Fúlvio vai ao local, e tenta aproximar-se dela para desrespeitá-la, sendo castigado com a morte. Seus companheiros, vendo isto, gritam que a nova prostituta havia matado o filho do prefeito com feitiçaria. Simprônio ao saber disso, acorre ao local, insulta-a, chamando-a de cruel e pergunta como matou seu filho. A menina responde que quem o matou foi o demônio, cujos maus desígnios Fúlvio queria cumprir. A prova disto é que os que a respeitavam saíam dali vivos e a salvo. O prefeito disse que lhe daria crédito, se fosse devolvida a vida a seu filho. Ela lhe responde: "se bem que não o mereça a vossa fé, é tempo de manifestar-se o poder de meu Senhor Jesus Cristo. Saiam todos, para que eu lhe ofereça a prece habitual". Rezando pelo rapaz, este tornou à vida, exclamando que só há um Deus verdadeiro, o Deus dos cristãos. Irados por esta profissão de fé de um jovem tão influente, os outros sacerdotes pagãos incitam o povo contra ela, pedindo que seja morta como bruxa por incitação à blasfêmia. Porém, Simprônio, tomado de estupor por tudo que viu, não tem mais coragem de condená-la e deixa o caso ao vice-prefeito Aspásio, que cede aos pagãos e ordena que seja queimada.


Os soldados tentam acorrentá-la para levá-la ao local do suplício; porém, as correntes caem de suas mãos. Por ter membros muito pequenos ou por prodígio, não se sabe; mas sabe-se que ela espontânea e alegremente segue para a praça onde seria executada. Prepara-se para entrar no fogo que haviam preparado para ela, ergue as mãos e os olhos para o céu, e ora: “eu vos dou graças, ó Todo-Poderoso Senhor, digno de honra e adoração, porque pelo sangue do vosso filho, me arrancastes das mãos sacrílegas do tirano e me fizestes passar impoluta nas vias da iniquidade. Eis que finalmente vou para junto de vós, Senhor, contemplar Aquele a quem tanto buscava e possuir Aquele por quem tanto esperava”. Porém, tampouco o fogo a consumiu. Apagou-se de imediato. Foi condenada então à decapitação.


Ao carrasco que insiste com ela para que abandone o seu Deus e poupe a sua vida, ela retruca: “É uma injúria ao Esposo esperar por outro que me agrade. Aquele que primeiro me escolheu para si, esse é que me receberá. Por que demoras, carrasco? Pereça este corpo que pode ser amado por quem não quero!”.


E assim, Inês recebe a coroa do martírio, com 12 ou 13 anos, no dia 21 de janeiro de 304, durante a décima perseguição aos cristãos ordenada por Diocleciano. Toma suas vestes de festa, lavadas e alvejadas no sangue do Cordeiro, e vai para a Eternidade celebrar os esponsais com o Único que amou nesta terra. Por influência de seus pais, não teve o corpo jogado às águas, como era costume na época para os executados por decapitação; ao invés disto, foi sepultada num túmulo pertencente à família, próximo à Via Nomentana. Conta uma piedosa tradição que, oito dias após sua morte, apareceu em grande glória a seus pais que a pranteavam junto a seu túmulo, segurando um cordeirinho e cercada de outras jovens, e consolou-os, falando-lhes da grande felicidade que gozava no Céu.


Esta é a história de Inês, a garotinha que por amor a Deus foi golpeada pelo império romano e por Ele foi vingada, fazendo Roma dobrar-se a ela: defronte ao antigo estádio de Domiciano, onde foi executada, hoje Praça Navona, está a igreja de Santa Inês in Agone, em sua homenagem (uma curiosidade: o nome não tem relação com a "agonia" da mártir: in agone era o antigo nome da praça, “piazza in agone” e significa "no local das competições"). Também próxima à catacumba onde foi sepultada, foi erguida a majestosa basílica de Santa Inês Fora dos Muros, por Constantina, filha do imperador Constantino, que obteve da santa a cura de uma doença de pele. A basílica foi palco de numerosos milagres por intercessão da mártir. A ela tecem louvores os Padres da Igreja. São Dâmaso, papa, adornou sua tumba com versos em sua memória. Dela diz Santo Ambrósio: “Ainda não preparada para o sofrimento e já madura para a vitória! Mal sabia lutar e facilmente triunfa!” São Jerônimo o segue e escreve: “Todos os povos são unânimes em louvar Santa Inês, porque vencendo a fraqueza da idade e o tirano, coroou a virgindade com a morte do martírio”.


Santa Inês é mencionada na ladainha de todos os santos e na liturgia das horas. No dia de sua festa litúrgica, 21 de janeiro, são apresentados ao papa pelos monges trapistas dois cordeirinhos, símbolos de Cristo, que depois de abençoados são entregues à guarda das monjas beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília, para serem tosquiados e terem de sua lã confeccionado o pálio (pallium) que o papa usa como símbolo da plenitude de seu poder pontifical. Ocasionalmente pode ser enviado um pálio feito da mesma lã a outro prelado, como penhor de um favor especial.


Por: Catarina Xavier


Catholic Nerds - Caucaia CE

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