20160301

O revezamento da Cruz pelo penhasco!

A maré virou! Não quero fazer o papel de “corvo da tempestade”, “coveiro dos amigos ou familiares”, mas é fato que a maré virou, e a virada foi vertiginosa, abrupta, violenta e, como não poderia deixar de ser, sem requintes de piedade... Sim, caro leitor, nossa estimada Civilização Ocidental, baluarte dos questionamentos filosóficos mais requintados e evoluções científicas incomparáveis finalmente rompeu a fronteira que separa uma “revolta juvenil contra seus pais” do “abandono definitivo do lar” e, o que é pior, de suas raízes. A você que me lê neste momento, deixe-me abrir seus olhos, mostrar-lhe este vasto território que se estende da Grécia aos confins da América e exclamar com voz seca, taxativa, firme e consciente: nossa Civilização não é mais cristã!

Não sou daqueles que traz a notícia com alívio no coração; muito pelo contrário. Como eu disse, não quero ser o “corvo”, e normalmente na literatura de ficção o corvo é atribuído aos maus presságios. Não é um mau presságio o que eu anuncio, mas uma realidade já consumada e incontestável para quem tiver a coragem de despertar de um longo sonho que durou quase mil e seiscentos anos, iniciado quando, em 312, o homem mais poderoso da Terra reconheceu a autoridade do Todo-Poderoso, que emana dos Céus, após a visão de uma brilhante Cruz e dos dizeres “In hoc signo vinces” (com este sinal vencerás)[i], tendo marchado e vencido o inimigo na ponte Mívio. E assim, caro leitor, você certamente não guarda a lembrança, mas os anais da História se encarregaram de registrar que em 313 Constantino concedeu a liberdade de culto aos cristãos. E deste modo iniciou-se, nos dizeres de Henri Daniel-Rops, o “revezamento do Império pela Cruz”[ii]! Obviamente não terei espaço para relatar todas as consequências que advieram deste significativo marco, mas basta lhe dizer que Roma finalmente caiu. E eis alguns dos motivos que, nas palavras do mencionado historiador da Academia Francesa, já falecido, levaram ao chão o maior Império do mundo: “Não é preciso dizer que todos os valores do homem desapareceram. A moral já não existe, afundada sob um mar de lama e de escândalos. [...] A devassidão, a queda da natalidade e a desonestidade são gerais, e é inútil fazer-lhes frente. Quanto aos valores criadores, seguem a mesma curva de decadência. [...]”[iii]. Parece que ele está a falar de nossos tempos (e as palavras poderiam ser as mesmas), mas refere-se na verdade ao estado de coisas que levaram Odoacro, chefe dos hérulos, a derrubar Rômulo Augusto em 476 e assim pôr fim ao Império.

Todavia, quando caiu a antiga cidade da Loba, a Igreja estava lá como farol a iluminar a humanidade que, dividida em tribos, batiam como ondas nas encostas dos montes da Cidade das Sete Colinas! E como farol sobrenatural a iluminar as tenebrosas escuridões dos calabouços interiores de todo aquele que se deixa envolver por esta Luz, fez o que parecia impossível: conduziu o homem para a verdadeira Idade das Luzes, a Idade Média, injustamente, ridiculamente e pateticamente apelidada pelos pensadores racionalistas da era do Renascimento de Idade das Trevas. Nada mais esdrúxulo, uma vez que destas famigeradas “trevas” surgiram: o ensino das famosas Sete Artes, isto é, o Trivium (gramática, dialética e retórica) e o Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música); a escola para os pobres, provida pela Igreja, como se prova, dentre outros, pelo Cânon 18 do Concílio Ecumênico de Latrão III, realizado em 1179; as Universidades, criadas pela Igreja, com seus famosos debates; o desenvolvimento da Arquitetura por meio da construção de fabulosas Catedrais; o surgimento de grandes cientistas, como Santo Alberto Magno, o monge franciscano Roger Bacon, o cardeal Nicolau de Cusa, o franciscano Luca Pacioli, Gerberto de Aurilac (Papa Silvestre II), Robert Grosseteste, também franciscano, etc. Sim, nobre leitor, afirmo com veemência que pelo menos 95% do que você aprendeu na escola sobre a Idade Média está completamente errado! Sobre a Igreja, subo a estimativa para cerca de 98%, e isso inclui o caso Galileu Galilei, Joana D’Arc, Giordano Bruno e a Inquisição de um modo geral! A detentora da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, que possui 70 membros vencedores do Prêmio Nobel (muitos dos quais venceram o prêmio quando já eram da academia) nunca foi inimiga da Razão ou da Ciência, e legou ao mundo a Civilização mais esplendorosa que nele já despontou: a Civilização Ocidental. “A Igreja Católica configurou a civilização em que vivemos e o nosso perfil humano de muitas maneiras além das que costumamos ter presentes. Por isso insistimos em que ela foi o construtor indispensável da civilização ocidental. Não só trabalhou para reverter aspectos moralmente repugnantes do mundo antigo – como o infanticídio e os combates de gladiadores –, mas restaurou e promoveu a civilização depois da queda de Roma. Tudo começou pela educação dos bárbaros, e é neles que nos detemos ao iniciarmos este livro.”[iv] (Dr. Thomas Woods, formado em História por Harvard, com PhD pela Universidade de Columbia).

Mas é bem verdade que “o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41) e, desde a mais tenra infância, “Se realmente ler os contos de fadas, você observará que uma ideia os percorre de uma ponta a outra – a ideia de que a paz e a felicidade só podem existir com alguma condição[v] (G. K. Chesterton). Cinderela pareceria mentirosa na frente do príncipe se não tivesse respeitado a regra de não estar mais no baile após a meia-noite, pois o vestido reapareceria rasgado, os cavalos tornariam a ser ratos e a carruagem voltaria a ser abóbora, e é bem provável que seu final não fosse feliz. Pinóquio não se tornaria um menino de verdade até que tivesse aprendido a respeitar totalmente sua consciência e não confiar em estranhos. Os homens continuariam a permitir o progresso da sociedade se não se tivessem deixado envolver, já no fim da Idade Média, pelo orgulho e pela sensualidade, pecados que abriram as portas para os movimentos revolucionários: primeiro, a Revolução Protestante, que levou o homem a rebelar-se contra a autoridade religiosa; depois, a Revolução Francesa, e o homem que havia se revoltado contra a autoridade religiosa agora se levanta contra a autoridade civil; em seguida, vem a Revolução comunista, na qual, nas palavras de Plínio Corrêa de Oliveira, em sua célebre obra Revolução e Contra-Revolução, “A sensualidade, revoltada contra os frágeis obstáculos do divórcio, tende por si mesma ao amor livre. O orgulho, inimigo de toda superioridade, haveria de investir contra a última desigualdade, isto é, a de fortunas. E assim, ébrio de sonhos de República Universal, de supressão de toda autoridade eclesiástica ou civil, de abolição de qualquer Igreja e, depois de uma ditadura operária de transição, também do próprio Estado, aí está o neobárbaro do século XX, produto mais recente e mais extremado do processo revolucionário.”[vi] Nada mais natural, posto que um abismo atrai outro abismo! O homem que desprezou a Fé em nome da Razão também seria levado a desprezar esta, pois ambas nos são dadas por Deus! E assim, desiluminado e desarrazoado, desprezou sua Mãe (a Igreja) e também o seu Pai (Deus) e, com eles, todos os valores que, em sua mente doentia, impedem sua felicidade final!  E assim chegamos à verdadeira Idade das Trevas, onde a Morte e não a Vida é quem dá a última palavra: é o aborto, a eutanásia, os suicídios como nunca se viram, a multiplicação das depressões, o desprezo e a tentativa de destruição das famílias com o divórcio, a ideologia de gênero, as uniões gays. Tudo, absolutamente tudo é bem-vindo, desde que não seja “moralista”; aliás, quanto mais imoral, melhor! Eis que o estratagema de Satanás vai obtendo êxito, tudo porque nossa Civilização lhe abriu uma pequena fresta. Como bem disse Pio XII, em seu Discorso agli uomini di Azione Cattolica, em 12 de outubro de 1952: “Ele se encontra em todo lugar e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo. Ele quis a natureza sem a graçaa razão sem a féa liberdade sem a autoridade; às vezes a autoridade sem a liberdade. É um ‘inimigo’ que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como as principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um direito sem Deus, uma política sem Deus. O ‘inimigo’ tem trabalhado e trabalha para que Cristo seja um estranho na universidade, na escola, na família, na administração da justiça, na atividade legislativa, na assembléia das nações, lá onde se determina a paz ou a guerra.”[vii]   

O jovem “artista” (bem entre aspas) Abel Azcona, espanhol, personifica nossos tempos (para ver sua história de vida, o que ajuda a entender que tipo de personalidade estamos gerando, recomendo o excelente artigo “A ruína da Europa – e como impedi-la”, de Felipe Melo[viii]). Pois bem, este jovem, menos de dois anos mais novo que este que vos escreve, está construindo renome no mundo da “arte” (absolutamente entre aspas), sendo uma de suas mais recentes obras a construção de um painel performático no qual, utilizando 242 hóstias realmente consagradas, forma no chão a palavra “pederastia”. Eis o ponto de desprezo pelo Transcendente a que chegamos! Caminhamos, dançantes, cantantes e felizes, em direção ao abismo, e não nos damos conta disso! Poucos romanos também percebiam o real perigo que Roma trilhava antes de sua Queda. Os bárbaros já estão em nossas ruas, em nossas escolas, em nossas esquinas e, muitas vezes, o que é mais doloroso, dentro de nossa própria família, de nossa própria casa. Nossa civilização deixou de ser cristã para tornar-se uma Civilização de Bárbaros, impotente para frear os interesses escusos que vêm daqueles de dentro dela que anseiam por construir uma Nova Ordem Mundial, especialmente os metacapitalistas de umas grandes Fundações Internacionais, que financiam a derrocada da família e a Cultura da Morte, aliados aos marxistas na destruição de tudo aquilo a que chamamos de valores cristãos. Não percebe também o perigo quem vem de fora, do bloco russo-chinês e dos mulçumanos, que enchem a terra (e a Europa, em especial) com filhos e mais filhos, enquanto nós, imbuídos de um espírito consumista,  achamos que filho é um fardo, impede que tenhamos o melhor carro, as melhores férias, as melhores roupas, e assim só geramos no máximo dois... três já é demais.

Concordar com o quadro descrito não é questão de escolha: ele é incontestável! Mas diante dele, talvez você partilhe de meus sentimentos de angústia, talvez não, caro leitor. Todavia, agora, creio que ao menos você entende um pouco da desolação deste miserável que vos fala... É realmente lamentável saber o caminho que estamos trilhando e que o remédio é desprezado pelos homens! Os bárbaros que numa avalanche se abateram sobre o Antigo Império da Loba se deixaram envolver pelo Evangelho; os bárbaros atuais possuem um desprezo pela Cruz que deixaria os antigos estupefatos e corados de vergonha. “À beira de um precipício só há uma maneira de andar para frente: é dar um passo atrás”[ix] (Michel de Montaigne). Encontramo-nos diante da possibilidade de dar este passo necessário, mas a grande questão que se levanta é: teremos a coragem de fazê-lo? Mea culpas são absolutamente necessárias, e a esta altura apenas uma clamorosa mea culpa pode nos fazer voltar e reconstruir tudo!

“Suponhamos que surja em uma rua grande comoção a respeito de alguma coisa, digamos, um poste de iluminação a gás, que muitas pessoas influentes desejam derrubar. Um monge de batina cinza, que é o espírito da Idade Média, começa a fazer algumas considerações sobre o assunto, dizendo à maneira árida da Escolástica: ‘Consideremos primeiro, meus irmãos, o valor da luz. Se a luz for em si mesma boa...’. Nesta altura, o monge é, compreensivelmente, derrubado. Todo mundo corre para o poste e o põe abaixo em dez minutos, cumprimentando-se mutuamente pela praticidade nada medieval. Mas, com o passar do tempo, as coisas não funcionam tão facilmente. Alguns derrubaram o poste porque queriam a luz elétrica; outros, porque queriam o ferro do poste; alguns mais, porque queriam a escuridão, pois seus objetivos eram maus. Alguns se interessavam pouco pelo poste, outros, muito; alguns agiram porque queriam destruir os equipamentos municipais; outros porque queriam destruir alguma coisa. E há uma guerra noturna em que ninguém sabe a quem atinge. Então, aos poucos e inevitavelmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, voltam a perceber que o monge, afinal, estava certo, e que tudo depende de qual é a filosofia da luz. Mas o que poderíamos ter discutido sob a lâmpada a gás, agora teremos que discutir no escuro.” (G.K. Chesterton).[x]


Por: Diego Souza Galvão de Melo
Catholic Nerds PE

[i]  JOHNSON, Paul. La Historia Del Cristianismo. Buenos Aires, Javier Vergara Editor, 1989. P. 83-84, apud VICENTINO, Cláudio. História Geral. Scipione. São Paulo: 2000, 8ª Ed. P. 93.
[ii] ROPS, Daniel. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. Quadrante. São Paulo: 1988. P. 531.
[iii] Ibid., ibidem. P. 534.
[iv] WOODS, Thomas. Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental. Quadrante. São Paulo: 2008. P. 11.
[v] CHESTERTON. G. K. Considerando todas as coisas. Campinas: Ecclesiae, 2013, apud CHAGAS, Arthur Eduardo Grupillo Chagas. A filosofia e a ética dos contos de fada de G. K. Chesterton. Disponível em: <http://www2.pucpr.br/reol/index.php/5anptecre?dd99=pdf&dd1=15507>.  Acesso em: 17 de fevereiro de 2016.
[vi] O Instituto Plínio Corrêa de Oliveira lançou uma excelente e valiosa edição comemorativa de 50 anos da obra Revolução e Contrarrevolução, que vale muito à pena adquirir. A obra on-line também pode ser conferida no seguinte endereço: < http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verrevcontrarev.asp?id=5>.
[vii] Disponível em: < http://w2.vatican.va/content/pius-xii/it/speeches/1952/documents/hf_p-xii_spe_19521012_uomini-azione-cattolica.html>. Acesso em: 05 de fevereiro de 2016.
[viii] Disponível em: < http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/16217-2015-11-26-20-34-50.html>.
[ix] Disponível em: <http://pensador.uol.com.br/frase/MjU5NTEw/>.
[x] CHESTERTON. G. K. Hereges. Ecclesiae: São Paulo, 2014, 3ª Ed. P. 47-48.
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