20160301

Santo Agostinho - Vida

Aurélio Agostinho nasceu em 354 em Tagaste, na África Romana. Viveu numa época de grandes transformações com a queda da cultura grego Romana e o crescimento do Cristianismo que estava dando seus primeiros passos. Um império caia, mas um gigante se levantava no meio Cristão. Com uma mente brilhante, Agostinho se tornou um dos maiores nomes da história da Igreja. Mas antes de tudo, era um homem sincero consigo mesmo, com inquietações, anseios e fraquezas que ele mesmo expõe através de uma obra prima chamada confissões, a qual mostra as misérias de sua alma e seu longo caminho de santificação.

Filho de um pai pagão, Patricio, homem cuidadoso com o filho, porém desprovido de ensinamentos Cristãos. Era filho também de Mônica, mulher incansável e implacável na esperança de ver seu tão amado filho nos braços de Deus. Na adolescência, Agostinho vivia uma vida semelhante a muitos jovens de hoje, entregue aos prazeres da carne e com os valores espirituais e racionais ofuscados. Assim ele fala dos conselhos da mãe:  “ De quem eram, senão de vós, aquelas palavras que , por meio de minha mãe, vossa fiel serva, pronunciastes aos meus ouvidos? Nenhuma delas, porém, desceu ao meu coração, para cumprir o que ela me aconselhava”.

Com 19 anos Agostinho teve acesso a obra literária de Cícero chamada Hortênsio, onde Cícero respondia as dificuldades de Hortênsio contra a filosofia, após a leitura desta obra ele se empolga com a filosofia e começa a acreditar que existe uma sabedoria a ser descoberta, assim excitando-o fortemente o desejo de amar, busca, conquistar, reter e abraçar, não esta ou aquela seita, mas sim a mesma sabedoria, qualquer que ela fosse. Inicialmente buscou na bíblia esta sabedoria, mas julgou-a por simplista demais, indigna de compara-la à elegância ciceroniana, coração soberbo não o deixava penetrar nas profundezas das leituras bíblicas. Um das coisas que inquietava Agostinho era o problema do mal, se Deus existe porque há o mal no mundo? A seita maniqueísta respondia com simplicidade a esta pergunta, afirmando que existem duas forças agindo no mundo como num ringue de batalha, essas duas forças eram o bem e o mal, desta forma, o mal se apresenta como uma força equiparada ao bem, sendo que do lado aposto. Por este e outros motivos Agostinho entrava nesta seita para tristeza de sua mãe que chorava lágrimas pela conversão de seu filho, certa vez Mônica se dirigiu a um Bispo pedindo que o próprio orientasse Agostinho para afastar-se do mal, ele prontamente negou o pedido afirmando que seu filho ainda era indócil e que ele mesmo pela leitura reconhecerá o erro e quão grande é a sua impiedade. Mônica continuava insistindo, não querendo sossegar com mais súplicas e assim vendo a angustia daquela mãe, o Bispo viria a dar uma resposta que ficou marcada nos anais da história Cristã: “Vai em paz e continua a viver assim porque é impossível que pereça o filho de tantas lágrimas!”, sábias e inspiradoras palavras que certamente confortaram aquela que viria a ser proclamada Santa pela Igreja.


Ao mesmo tempo, sua brilhante e notável inteligência estava se manifestando e ele ganhou vários torneios de poesias e se tornou conhecido no mundo filosófico. Demorou nove anos para Santo Agostinho se libertar de sua vida herege no maniqueísmo, o fato decisivo de sua saída foi ao conhecer Fausto, um eloquente mestre da seita. Agostinho o fazia várias indagações, que apesar de seu agradável jeito de se expor, tinha pouco a oferecer aquela mente inquieta, assim explicita Agostinho: “Mas como é que esse copeiro tão elegante, que me servia por copos preciosos, me podia matar a sede?”. Desiludido, o professor de retórica em Cartago¹ partiu para Milão onde, sem querer, viria a conhecer um Santo que mudaria a sua visão sobre a vida Cristã.

Esse Santo se chama Ambrósio que era Bispo de Milão, homem conhecido pelas suas qualidades e muito piedoso. Agostinho escutava com atenção as pregações de Ambrósio e assim ele relata a sua experiência primeira com o Bispo: “Deleitava-me com a suavidade do discurso, bem mais erudito do que Fausto, porém menos humorístico e sedutor na apresentação. Pelo que se refere ao assunto, não se podem comparar, pois um vagabundava pelos enganos dos maniqueístas, e o outro ensinava com a máxima segurança a salvação”. As pregações de Ambrósio continham um forte teor platônico, assim foi através das palavras do Bispo e de seus estudos de livros platônicos que Agostinho começou a deixar de lado sua ideia de um Deus corpóreo² para o conceito de incorporiedade e da infinitude de Deus. Aos poucos Agostinho caminhava para o cristianismo e estava ficando cada vez mais persuadido que a verdade estava em Cristo, porém ainda não tinha a coragem de se livrar das correntes do pecado: “Era demasiado fraco para gozar de vós!”. Faltava-lhe um impulso, uma força do alto que o ajudasse a rasgar com aquele homem velho que existia em si e se entregar nos braços daquele que é manso e humilde de coração.

Tudo começou a mudar quando em certo dia num Jardim em Milão uma luta interna se travava dentro do seu coração: “Dizia dentro de mim: Vai ser agora, agora mesmo. E pelas palavras caminhava para a decisão final. Estava a ponto de a cumprir, e não a cumpria. Já não recaia na antigas paixões, mas estava próximo delas e respirava-as”. As tentações da carne ainda eram intensas, velhas amigas murmuravam baixinho: “Então despede-nos? Daqui por diante, nunca mais estaremos contigo. Desde agora, nunca mais te será lícito fazer isto e aquilo..” e assim relata Agostinho: “ E que coisas, ó meu Deus, que pensamentos me sugeriam as vaidades..que imundícies me sugeriam, que indecências!”. A luta de Agostinho consigo mesmo era intensa e soltava gritos lamentosos: “Por quanto tempo, por quanto tempo andarei a clamar: Amanhã, amanhã? Por que não há de ser agora?”. Uma dor amarga o dominava e chorava rios de lágrimas até escuta uma voz de uma casa próxima que dizia: “Toma e lê; toma e lê”. Imediatamente mudando o semblante percebeu que a ordem era para abrir a bíblia e ler o primeiro capítulo que encontrasse, prontamente ele abriu no livro de Romanos 13,13: Não caminheis em glutonarias e embriaguez, nem em desonestidades e dissoluções, nem em contendas e rixas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne com seus apetites”. Ao acabar de ler penetrou no coração de Agostinho uma luz serena,e todas as trevas da dúvida fugiram. Quando fechou o livro se levantava um gigante, não era só um homem que se convertia, era um homem que viria a transforma todo o pensamento Cristão e que iria mudar os rumos de uma época, um gênio finalmente despertava! Ao saber o ocorrido sua mãe bendizia a Deus porque lhe tinha concedido muito mais do que ela costumava pedir, com tristes e lastimosos gemidos. Assim Agostinho fecha o capitulo sobre sua conversão em seu livro chamado Confissões:  “De tal forma me converteste a vós que eu já não procurava esposa, nem esperança alguma do século, mas permanecia firme naquela regra de fé em que tantos anos antes me tínheis mostrado a minha mãe. Transformastes a sua tristeza numa alegria muito mais fecunda do que ela desejava, e muito mais querida e casta do que a que podia esperar dos netos nascidos da minha carne.”   

Em 25 de Abril de 387 recebia o batismo das mãos de Santo Ambrósio, depois disso viu a morte de sua mãe que já não mostrava interesse de viver neste mundo. Uma coisa só fazia Mônica prolongar sua vida neste mundo que era ver seu amado filho Católico, assim nada mais a impedia, seu corpo estava no mundo, mas sua alma já estava completamente entregue a Deus. Dirigindo a Agostinho e a seu irmão falava: “Enterrai este corpo em qualquer parte e não vos preocupei com ele. Só vós peço que vos lembre de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejais”. Com 56 anos de idade morria esta alma piedosa³. Em Tagaste, no ano de 391, Agostinho foi ordenado sacerdote; em 395 foi consagrado bispo de Hipona. Combateu os inimigos da fé e da Igreja,e também escreveu variadas obras primas que são estudadas até os dias atuais. No campo da filosofia contribui de forma significativa, sendo chamado de Platão Cristão. Em 28 de Agosto de 430 morre Agostinho.
A vida deste Santo nos traz a tona que mesmo os grandes Santos passaram pelas mesmas angustias e dúvidas que nós passamos ao longo da caminhada, mostra-nos que verdade conhecida deve ser verdade obedecida. Ai esta o drama da vida de Agostinho e de todos os Cristãos, esta no fato de que é preciso deixar muitas vezes nossos gostos, sentimentos e pensamentos próprios para se curvar a uma verdade. O homem tem sede da verdade e talvez por amarem de tal modo a verdade que todos os que amam outra coisa querem que o que amam seja verdade. Como não querem ser enganados, não se querem convencer de que estão no erro e assim a soberba vai direcionando a alma em caminhos cheios de enganos e vazios.

Citações:
1- Agostinho ensinava retórica em Cartago (Norte da África), mas com 29 anos decidiu continuar o ensino em Roma; era movido pela esperança de ter alunos menos turbulentos que os de Cartago e também pela ambição de consegui sucesso e dinheiro. Mas após um ano desistiu e assumiu o cargo de professor em Milão.
2- Agostinho acreditava que Deus abraçava o mundo como que uma esponja gigante abarcaria todo um mar. Assim possuindo uma ideia materialista de Deus.
3- Mônica recebeu da Igreja e da tradição cristã o título de santa. O seu corpo foi sepultado na cripta da igreja de Santa Áurea, em Óstia, onde foi descoberto em 1430 e transladado para Roma.

Por: Augusto Cesar
Catholic Nerds - PE

*Referências
História da Filosofia- Nicola Abbagnano.Vol II,Editorial presença.

Santo Agostinho- Os Pensadores,Ed.Nova Cultura.
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