20180227

A Quaresma: consciência do encontro da verdade pela misericórdia


Por: André Fernandes Oliveira



Os cristãos desde os mais remotos tempos preparam-se para as grandes solenidades anuais, a Páscoa na Ressurreição do Senhor e o Natal. A ambos os eventos da salvação, a Liturgia  privilegia os batizados com os chamados tempos fortes do Ano Eclesiástico. A saber o período de quatro semanas, o Advento e a Quaresma, simbolizado pelo arco periódico de quarenta dias: número que consoante a literatura bíblica é o espaço de uma geração para outra, referenciado na Bíblia pela peregrinação do Povo de Israel pelo deserto à terra da promessa, pelos dias que o Profeta Elias precisou para chegar ao Horeb e, para legitimar a observância quaresmal, o tempo em que, segundo os evangelistas sinóticos, Jesus passou no deserto e foi tentado por Satanás, quadro este contemplado ao I Domingo da Quaresma, vulgarizado da “Tentação do Senhor”.
A Quaresma principiada à quarta-feira, após o Carnaval, com a recepção das cinzas e a prática do jejum sagrado e da abstinência, são sacramentais que  nos inserem na dinâmica própria desse tempo. Chega-se para a Missa que abre solenemente a preparação para a Páscoa em jejum e após a homilia o sacerdote ou um outro ministro idôneo derrama nas cabeças as cinzas. A sensação é aquela que a Escritura descreve nos salmos: voltai-vos para o pó filhos de Adão, ou seja, o homem, de per si, é fraqueza, prova-se a restrição do prazer do alimento e se une a isto as cinzas, o pó!
A Quaresma é paradoxal. Mas... que é o Cristianismo, se não esta radicalidade que leva ao cimo de todo o percurso da profissão de fé começada no Batismo? A propósito da interrogativa, o literata inglês Chesterton, em sua obra elementar, Ortodoxia, escreve:
O Cristianismo não só deduz verdades lógicas, mas quando, subitamente, se torna ilógico, é porque encontrou, digamos assim uma verdade ilógica. O seu plano ajusta-se às secretas irregularidades e espera o inesperado. É simples acerca da verdade simples, mas é obstinado quanto a uma verdade sutil. Admitirá que o homem tem duas mãos, mas não admitirá [...] a óbvia dedução de que ele tenha dois corações.
À lume da exposição de Chesterton, se pode dispor a grande mística que o tempo da Quaresma  intima. Neste ponto, o apóstolo São Paulo, na segunda leitura da Santa Missa da Quarta-Feira de Cinzas, exorta: Somos embaixadores de Cristo, e é como se Deus falasse por meio de nós. Por Cristo vos suplicamos: Deixai-vos reconciliar com Deus. Aquele que não conheceu pecado, por nós Deus o tratou como pecador, para que nós, por seu intermédio, fôssemos inocentes diante de Deus(cf.2 Cor 5, 20-21). A chamada do apóstolo à comunidade de Corinto ecoa nesse tempo como um convite de profunda mudança; e esta, pois, se (a)profunda radicalmente em Jesus Cristo. Na pessoa de Jesus, tornado “pecado” para a justificação, contemplamos que a lógica da ação de Deus é superior à maneira das confortáveis concepções superficiais da conjuntura extra-cristã, destarte contemplamos o porquê da Quaresma nos imergir na realidade de uma adequação que concorde com o querer de Deus para se atingir a estatura do homem perfeito que é o Cristo. Ao percorrermos todos os textos que a Liturgia a cada dia nos propõe durante esse tempo, concluímos, uma dupla faceta: a de que o homem deseja ardentemente encontrar o Deus, cuja aliança fora quebrada com o Pecado Original e da iniciativa do próprio Senhor que não se cansa em dizer para o seu Israel: “Volta!”
Para endossar tal exposição podemos nos servir da Leitura Breve de Laudes do Sábado da Primeira Semana da Quaresma: Lavai-vos, purificai-vos. Tirai a maldade de vossas ações da minha frente. Deixai de fazer o mal! Aprendei a fazer o bem! Procurai o direito, corrigi o opressor. Julgai a causa do órfão, defendei a viúva. Vinde, debatamos-diz o Senhor. Ainda que vossos pecados sejam como púrpura, tornar-se-ão brancos como a neve. Se forem vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como lã (cf. Is 1, 16-18). Eis a razão pela qual nos decidimos a viver o tempo quaresmal: encontrar pela misericórdia a verdade! Este é um tema que deve ser recobrado, sobretudo, em nossos dias, onde a concepção de misericórdia é um critério que o próprio homem estabelece e, faz de Deus, marionete dos seus planos. Ledo engano!
Parece-nos que o Salmo 36, dos versículos dois ao cinco, descreve a sensação do iníquo quando coloca a Deus no mesmo patamar das suas relações e, alheio, impiedoso, não deseja mais a comunhão com a verdade que é o primeiro e último critério de um retorno pelas sendas da misericordiosa bondade de Deus. Com precisão diz o Salmista: Oráculo do Pecado ao perverso dentro do seu coração. Não tem medo de Deus nem mesmo em sua presença.  Ele se ilude de que sua culpa não será descoberta nem detestada. As palavras de sua boca são maldade e traição, recusa ser sensato e agir bem. Deitado planeja o seu crime, obstina-se ao mau caminho, não rejeita a maldade. Em contrapartida ao que descreve o salmista, contemplamos em Agostinho de Hipona a  experiência do autoconhecimento e do reconhecimento do pecado e que tenciona a um regresso com humilde verdade. Escreve o Santo Pastor de Hipona, no Livro I das Confissões:
É pequena a casa da minha alma, para que tu venhas a ela: que seja ampliada graças a ti. Está em ruínas: reforma-a. Contém coisas que ofendem teus olhos: digo-o, sei-o. Mas quem a limpará?  Para quem, senão para ti, clamarei: purifica-me de minhas culpas secretas, Senhor, e poupa teu servo das alheias? Eu acredito, e por isso falo. Senhor, tu sabes. Não te enumerei contra mim minhas faltas, meu Deus, e tu perdoaste a impiedade do meu coração? Não discuto teu julgamento, Senhor, tu és a verdade; e eu não quero me enganar, não quero que minha iniquidade minta para si mesma. Cf. Confissões Livro I, 6.
A perlustração de Agostinho acerca de si mesmo e a sua contrição, desperta-nos para uma pergunta crucial, para que nem caíamos na tentação da presunção e tampouco ao não temor a Deus. Agostinho tem a postura e a clara consciência de que, como diz o Salmo 50, seu coração é sua alma penitente, de modo que ainda assevera: (...) deixa-me falar à tua misericórdia, eu, terra e cinza, deixa, contudo, que eu fale, porque é à tua misericórdia que falo, não a um homem que possa rir de mim. Pois o que é que quero dizer, Senhor, senão que não sei de onde vim até aqui, para isso que chamo vida mortal, ou morte vital (...) Escuta, Deus: Ai dos pecados dos homens! Um homem diz isso, e tu tens piedade dele, porque tu o fizeste, e não fizeste seu pecado.” Os sentimentos do convertido (Agostinho) são os mesmos ou ao menos devem parecer com os nossos neste tempo de meta-noia.
É preponderante, refletirmos: A misericórdia que procuro em Deus é uma via oportuna para uma volta ao coração da verdade ou um subterfúgio para que moldemos “Deus” aos nossos apetites, levando a uma (in)contrição? Serviremo-nos de Chesterton que pode nos ajudar à reflexão da interrogativa: O Coração deve fixar-se no que é certo, e, no momento em que tivermos um coração fixo, teremos a mão livre.Parece-nos que nesta afirmação se desvela o que havíamos proposto: voltar pelo caminho da misericórdia para a verdade. Um coração afixado o é virtuoso. Paulatinamente vai se conformado ao coração do Trespassado que, pendente do alto da Cruz, diz-nos, como a Parábola do Pai Misericordioso: Tudo o que é meu é teu. Este é o itinerário da Quaresma: em Cristo, a Páscoa, celebrarmos o nosso êxodo para a contemplação da verdade buscada.

Referências:

1- Agostinho, Santo, Bispo de Hipona, 354-430. Confissões/ tradução do latim e prefácio de Lorenzo Mammì - Primeira edição - São Paulo: Peguin Classics Companhia das Letras, 2017.
2- Biblia do Peregrino -  Edição de Estudos; Paulos, 2002.
3- Liturgia das Horas Segundo o Rito Romano II Tempo da Quaresma, Tríduo Pascal, Tempo da Páscoa; Paulus, 2000.
4- Ortodoxia; CHESTERTON, G.K.; Tradução de Ives Granda da Silva Martins Filho -  Campinas, SP: Ecclesiae, 2013.
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