20180220

Clube do Livro II: UM PAPA MODERNO, ANTIMODERNO OU PÓS-MODERNO?

Por: Rudy Albino de Assunção

 “A palavra Igreja fere os ouvidos da modernidade”[1]. O teólogo Joseph Ratzinger assim se expressava acerca da postura da época moderna diante da Igreja. Tal afirmação ficou muito tempo ecoando em meu interior. E quanto mais eu lia a obra do teólogo Ratzinger – na qual eu comecei a mergulhar com apenas quinze anos – fui percebendo que ele tinha um diagnóstico não só da Igreja em nosso tempo, mas do “nosso tempo”. A palavra modernidade e seus derivados eram frequentes na obra ratzingeriana. Eu queria entender como ele via a Igreja, mas logo me dei conta de que seria impossível fazê-lo sem estudar a fundo a visão de Ratzinger sobre o mundo com o qual ela tem que se confrontar. Por isso, a pergunta da qual nasceu este livro é precisamente a inversão da asserção acima: para Ratzinger, a palavra modernidadefere ainda os ouvidos da Igreja? Afinal, Igreja e modernidade são duas realidades colocadas habitualmente em oposição. A verdade é que a relação entre ambas – uma instituição religiosa e uma etapa histórica – é bem mais complexa, pois “o cristianismo foi um ‘vetor’ da modernidade exatamente como, em última análise, foi sua ‘vítima’”[2].
Embora o protestantismo ascético (anabatista, calvinista etc.) esteja associado ao aprofundamento e à consolidação da modernidade, figurando entre a multiplicidade de suas causas – como nos fez ver a sociologia do racionalismo de Max Weber[3] a que se recorrerá neste estudo – o catolicismo é aquele que fez sentir em seu meio de modo mais drástico as suas consequências. Desse ponto de vista, para entender a modernidade deve-se colocá-la à contraluz do catolicismo entendido por determinada abordagem histórica como o seu principal antagonista: “A mais conhecida versão das relações entre o cristianismo [catolicismo] e a modernidade é a de exclusão mútua. O cristianismo ocidental pretende ser decididamente antimoderno, na medida em que a razão das Luzes mina as bases da autoridade da revelação e da tradição e em que o advento das sociedades democráticas contesta diretamente o princípio hierárquico da sociedade-Igreja”[4].
Por isso, a relação entre catolicismo e modernidade está cheia de intervenções do magistério papal[5], em geral opondo-se à modernidade; esta última era encarada pelo papado, para usar as palavras do historiador Émile Poulat, com uma “intransigência intratável”[6]. Mas, segundo a própria narrativa teológica e historiográfica católica, um evento mudou essa orientação: o Concílio Vaticano II (1962-1965)[7]. Seus documentos revelariam a intenção da Igreja em manter umdiálogo com o mundo moderno, o que representaria uma mudança oficial de postura, correspondendo “à passagem de uma interpretação da modernidade como categoria ideológica, tal como se dera na tradição antimodernista, para uma consideração da mesma como um fenômeno puramente histórico”[8]. Com o Concílio, afirmava-se a ideia de ler os “sinais dos tempos” sob uma óptica “otimista”, visando com um isso um aggiornamento, uma atualização da Igreja: “Com o Vaticano II não será mais necessário, para identificar-se como cristão, declarar-se antimoderno” [9].
A partir da eleição de João Paulo II em 16 de outubro de 1968, diversos comentadores defenderam que essa herança de abertura do Concílio foi deixada de lado[10]. Esse papa teria endossado um projeto “substancialmente antimoderno” [11]. Há, é claro, uma leitura contrária do papado wojtyliano[12], tal como a de Andrea Riccardi, que endosso: “Esta é linha do pontificado de João Paulo II sobre as grandes questões que separam a Igreja da modernidade ocidental: não adaptar-se, mas procurar uma nova linguagem e novas práticas, para viver e propor aquilo em que a Igreja crê”[13].
Prosseguindo com o quadro que estamos construindo, para José Comblin (1923-2011), teólogo e missionário belga radicado no Brasil, o Cardeal Joseph Ratzinger teve um papel preponderante na orientação doutrinal do pontificado de São João Paulo II[14]. Essa avaliação fica ainda mais cristalina na seguinte avaliação, presente na sua obra O povo de Deus: “O Cardeal J. Ratzinger foi o instrumento mais adequado que se podia achar para dirigir a manobra de restauração. Fora teólogo do Concílio, mas foi um dos primeiros que se assustaram e se arrependeram. Na realidade a sua teologia não se adequava à teologia conciliar. Já desde 1969 voltou à teologia anterior. Ele mesmo cultivou uma visão extremamente pessimista do mundo moderno e acentuou ainda mais as tendências pessimistas do papa”[15]
Nosso interesse vai além da dura afirmação de Comblin de que há ruptura no pensamento ratzingeriano, o que Ratzinger peremptoriamente rejeitou inúmeras vezes[16]. Mais do que uma apreciação global da obra ratzingeriana feita pelo teólogo belga, interessa em sua afirmação a correlação necessária que ele estabelece: uma orientação “conservadora” em relação ao Concílio significaria uma visão negativa da modernidade com a qual a grande assembleia pretendeu dialogar. Comblin está longe de ser o único a endossar esta avaliação negativa da hermenêutica do Vaticano II realizada pelo Cardeal Ratzinger, pois ela foi e é vista amiúde como oposição ao Concílio e, consequentemente, como oposição à modernidade[17].

Trecho da introdução de: ASSUNÇÃO, R. A. de. Bento XVI, a Igreja Católica e o "espírito da modernidade". Uma análise da visão do Papa Teólogo sobre o "mundo de hoje". São Paulo-Campinas: Ecclesiae-Paulus, 2018.










[1] RATZINGER, Joseph. Credo para hoje: em que acreditam os cristãos. Braga: Editorial Franciscana, 2007a, p. 149.
[2] GEFFRÉ, Claude; JOSSUA, Jean-Pierre. Editorial: Interpretação teológica da modernidade. Revista Concilium, Petrópolis, v. 6, n. 244, 1992, p. 4.
[3] Cf. WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
[4] Ibid. GEFFRÉ, Claude; JOSSUA, Jean-Pierre. Editorial: Interpretação teológica da modernidade. Revista Concilium, Petrópolis, v. 6, n. 244, 1992, p. 4.
[5] Cf. SABETTA, Antonio. Teologia della modernità. Percorsi e figure: Cinisello Balsamo: San Paolo, 2002.
[6] POULAT, Émile. Catolicismo e modernidade: um processo de exclusão mútua. Revista Concilium, Petrópolis, n. 244, v. 6, p. 17-24, 1992, p. 17.
[7] O Concílio Ecumênico Vaticano II foi uma assembleia de bispos de todo o mundo, convocado pelo papa João XXIII em 1959 e inaugurado em 1962. Durante os trabalhos conciliares faleceu João XXIII e, em seguida, foi eleito Paulo VI, que decidiu prosseguir com o Concílio. Este foi encerrado em 1965 (cf. ALBERIGO, Giuseppe. Breve história do Concílio Vaticano II: (1959-1965). Aparecida, São Paulo: Santuário, 2006).
[8] TURBANTI, Giovanni. A atitude da Igreja em face ao mundo moderno, durante o Concílio e no pós-Concílio. Revista Concilium, Petrópolis, v. 6, n. 244, 1992, p. 105.
[9] DUQUOC, Christian. Pertença eclesial e identificação cristã. Revista Concilium. Petrópolis, v. 12, n. 216, 1998, p. 129.
[10] Confluem nesse sentido as opiniões presentes nas seguintes obras: LIBÂNIO, João Batista. A volta à grande disciplina. São Paulo: Loyola, 1984; LADRIÈRE, Paul. (org.) Le retour des certitudes. Evénements et orthodoxie depuis Vatican II. Paris: Centurion, 1987; LADRIÈRE, Paul. Le rêve de Compostelle. Vers la restauration d’une Europe chrétienne? Paris: Editions du Centurion, 1989; LERNOUX, Penny. People of God. The struggle for World Catholicism. New York: Viking, 1989; MENOZZI, Daniele. Giovanni Paolo II. Una transizione incompiuta? Brescia: Morcelliana, 2006. Uma avaliação do longo e complexo pontificado de João Paulo II não está dentro do objetivo desta análise, o que não permite discutir ou problematizar esta leitura do seu governo da Igreja.
[11] Embora com “traços de indiscutível modernidade” (TURBANTI, 1992, p. 114), tais como as viagens, o uso dos mass media, o abandono de uma aura de sacralidade do papado. 
[12] Para uma visão contrária a tal avaliação do pontificado de São João Paulo II, cf. PORTIER, Philippe. Cristianismo e Modernidade no pensamento de João Paulo II.Numen: Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, Juiz de Fora, v. 12, n. 1 e 2, p. 59-80.
[13] RICCARDI, Andrea. João Paulo II: a biografia. São Paulo: Paulus, 2006, p. 44.
[14]  Joseph Alois Ratzinger nasceu em 16 de abril de 1927, em Marktl am Inn, Baviera, na Alemanha. Depois de ordenado sacerdote, iniciou sua carreira acadêmica em diversas universidades alemãs. Em 1977 foi nomeado arcebispo de München e Freising, pelo Papa Paulo VI. No mesmo ano foi nomeado cardeal. Permaneceu em sua arquidiocese até 1982, quando o Papa João Paulo II o chama a Roma para assumir a função de Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé. No dia 19 de abril de 2005 é eleito papa, sucedendo a João Paulo II, tendo escolhido para si o nome de Bento XVI. Cf.BLANCO, Pablo. Benedicto XVI, el papa alemán. Barcelona-Ciudad de México: Planeta, 2010 (há uma versão anterior, mais reduzida, do mesmo autor, publicada no Brasil: Joseph Ratzinger: uma biografia. São Paulo: Quadrante, 2005a. Cf. também TORNIELLI, Andrea. Bento XVI: o guardião da fé. Rio de Janeiro, Record, 2006 e SEEWALD, Peter. Bento XVI visto de perto. São João do Estoril: Lucerna, 2007. Para uma breve e didática iniciação ao seu pensamento: BLANCO, Pablo. Bento XVI: Um mapa de suas ideias. São Paulo: Molokai, 2016; mas para uma visão mais ampla dos temas abordados pelo teólogo alemão, cf. BLANCO, Pablo. La Teología de Joseph Ratzinger. Una introducción. Madrid: Palabra, 2011. Tem-se ainda, em língua portuguesa, VIGINI, Giuliano. Guia para a leitura da obra de Joseph Ratzinger, Bento XVI. Cascaes: Lucerna, 2012.
[15] COMBLIN, José. O povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2002, p. 8.
[16] A resposta a essa afirmação é dada pelo próprio Ratzinger: “Na minha história de teólogo, não vejo nenhuma fratura mas um desenvolvimento. Em primeiro lugar, o contexto histórico mudou. Permita-me contar um fato que se verificou em 1968, quando percebi essa mudança com clareza. Um jovem me disse que perdera a fé mais ou menos um ano antes, e continuou a praticar o cristianismo exteriormente, para não criar problemas no seu meio. Em 1968, participou de um grande encontro com estudantes como promotor da autêntica renovação da Igreja, com arrogância consciente e agressividade. Pode ser que esse seja um caso particularmente drástico, mas a partir daquele momento era claro que se tratava de outras questões em relação ao que acontecia em 1965 e que nós, como teólogos, vivíamos em um contexto diferente” (RATZINGER, Joseph. Ser cristão na era neopagã: Entrevistas (1986-2003)v. 3. Campinas: Ecclesiae, 2016, p. 110-111).
 [17] HÄRING, Hermann. Una teologia cattolica? J. Ratzinger, o il trauma di “Giovannino fortunato”. In: KÜNG, Hans; GREINACHER, Norbert (a cura di). Contro il tradimento del Concilio. Dove va la Chiesa cattolica? Torino: Claudiana Editrice, 1987, p. 201-213; KÜNG, Hans. Il cardinale Ratzinger, papa Wojtyla e la paura della libertà. Una parola chiara dopo un lungo silenzio. In: KÜNG, Hans; GREINACHER, Norbert (a cura di). Contro il tradimento del Concilio. Dove va la Chiesa cattolica? Torino: Claudiana Editrice, 1987, p. 325-340.
Cf. também MENOZZI, Daniele. El anticoncilio (1966-1984). In: ALBERIGO, Giuseppe; JOSSUA, Jean-Pierre (eds.). La recepción del Vaticano II. Madrid: Cristiandad, 1987, p. 385-413. A quinta parte é dedicada às “Posturas negativas ante o Concílio”. Menozzi diz tentar discernir formas sutis de resistência ao concílio no terreno de sua aceitação (p. 389). O autor questiona a própria postura de Paulo VI em relação ao concílio. Ele aponta também que Paulo VI teria adotado uma via media entre os inovadores que querem se libertar da tradição e os conservadores incapazes de distinguir os costumes abandonáveis e a tradição que se deve preservar (p. 396). Paulo VI, na visão de Menozzi, elogiava com mais frequência aos conservadores e, inclusive, muitas de suas tomadas de posição assemelhavam-se aos discursos de Mons. Marcel Lefebvre. Embora Ratzinger ainda não apareça diretamente no texto, logo depois ele será colocado na mesma fileira que outros teólogos e eclesiásticos considerados, de algum modo, opositores do Vaticano II.
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